• Eduarda Porfírio

13 de outubro de 2015

Era uma terça ou quinta-feira do mês de outubro, não lembro ao certo. Só guardei a data em meu coração do mesmo jeito que qualquer garota faria se naquele dia tivesse acontecido o seu primeiro beijo ou um pedido de namoro. A diferença é que em 13 de outubro de 2015 não havia ocorrido nenhuma dessas coisas, era apenas a primeira vez em que eu pisava no estádio.


Aquele 13 de outubro de 2015 era por mim muito aguardado desde que descobri a magia do futebol. Minha alma ansiava por sentir na pele a vibração da torcida que assistia em casa e com quem gritava junto. Algo me dizia que ainda não havia experimentado a melhor parte de ser torcedora, meu coração pulsava ansioso por essa sensação.


Mas, o processo para esse dia foi mais complicado do que deveria ter sido. Porque veja bem, morar na capital tem suas vantagens, como ter um estádio de Copa do Mundo há poucos quilometros de sua casa. No entanto, há também o infortúnio de reunir duas torcidas organizadas conhecidas por conflitos violentos pós-jogo que deixam as mães preocupadas com os filhos que saíram para ver uma boa partida.


E a minha mãe não é só preocupada demais - afinal, a ansiedade é algo herdado em minha família - como é superprotetora, do tipo que nunca me deixou ir dormir na casa de uma amiga na minha adolescência, por medo do que poderia acontecer na ausência dela. Então, durante um tempo, a ida ao estádio estava fora de cogitação. Com a única exceção: se meu pai ou meu tio quisessem me levar, mas, eu nem me iludia com as possibilidades disso acontecer.


Os únicos amigos que gostavam de futebol eram meninos, porém, não é como se eles me chamassem para ir aos jogos. Era legal ter uma amiga que entendia e gostava do esporte para eles, mas andar comigo era o mesmo que passar um repelente para espantar as “pessoas legais e interessantes”.


Só me restava tentar ir a uma partida da seleção brasileira. Contudo, há aquela altura o time nacional só estava jogando em outros estados e digamos que, minha família não é lá das mais abastadas em dinheiro.


Se eu fosse politeísta, diria que foi nesse momento que os deuses do futebol tiveram piedade de mim e resolveram me conceder uma benção. Esperançosa do jeito que sempre fui, acompanhava ávida o calendário da seleção a fim de me preparar para o dia em que viriam à minha cidade.


Enfim, aconteceu. Eu sabia que devia agarrar aquela oportunidade com unhas e dentes, porque tão cedo não haveria outra. Implorei aos meus pais, mas foi meu tio quem comprou o ingresso com uma singela condição: eu tinha que arranjar alguém para me levar. Nesse momento, a esperança se esvaiu completamente de mim, porque sabia bem que não poderia contar com ninguém do meu grupo de amigos para isso.


Absolutamente ninguém, por mais que pedisse, espernear se, implorasse até. Nenhum deles iria se dispor, e, as minhas poucas amigas mulheres também não podiam. Mas, isso tinha mais a ver com os pais delas deixarem do que a vontade (que uma delas tinha).


Só me restou recorrer ao divino e confiei que apareceria alguém, nem que fosse no dia. Foi assim que aconteceu, depois de algumas horas de choro e de muita resistência ao pedido do amigo do meu tio para que eu vendesse o ingresso. Não sei como e nem porque, meu tio conseguiu com que duas mulheres me acompanhassem nessa aventura.


Nunca mais as vi depois daquele dia, nem lembro seus nomes direito. Mas, uma coisa é certa, os trezes de outubro que viriam nos anos seguintes teriam o sabor de uma lembrança vívida.


Até aquele 13 de outubro de 2015, só me sentia à vontade em três lugares: meu quarto, a sala de dança e o palco do teatro. Quando subi as escadas de acesso para a arquibancada e aquelas luzes iluminaram meu rosto, tive vontade de chorar. Naquele 13 de outubro, finalmente senti aquilo que tanto via na televisão e ansiava. O estádio havia se tornado a minha casa.

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