Quem viu, viu. Quem não viu, jamais verá

Atualizado: Jul 25

26 de novembro de 2005, Aflitos: o nome profético do estádio resumiu o dia e a partida entre Grêmio x Náutico. O jogo iria definir uma das vagas para a série A do Campeonato Brasileiro do próximo ano, e apenas os dois primeiros times do quadrangular iriam subir. O tricolor gaúcho precisava de apenas um empate para garantir o título. O resultado da Batalha dos Aflitos todos conhecem, mas poucas pessoas sabem que essa batalha começou no dia anterior. Para contar os detalhes dos bastidores, convidamos o ex-lateral direito, Patrício.


O clima de ‘guerra’ iniciou na chegada da delegação em Recife, o momento de maior tensão aconteceu durante a noite, onde a torcida pernambucana soltou rojões perto do hotel. Segundo Patrício, os jogadores dormiram pouco. A chegada ao estádio não foi fácil, tanto jogadores, como comissão técnica tiveram que passar pela torcida local. “Copos de cerveja foram jogados em nós, o vestiário havia sido pintado, e estava com cheiro de tinta fresca”. Além dos problemas enfrentados na chegada, o elenco comandado por Mano Menezes também foi impedido de fazer o aquecimento. Apesar de toda a dificuldade que a equipe estava enfrentando, a comissão técnica preparou os jogadores, palavras de incentivo e confiança ao elenco, foram fundamentais. O único objetivo era subir o Grêmio para a elite do futebol brasileiro.


Em um primeiro tempo conturbado, que viria ditar previamente a segunda etapa da partida, o Grêmio encontrou um adversário forte em seu ataque, que chegava com perigo, mas esbarrava na dura zaga gremista e por vezes explodia nas mãos sagradas de Galatto. Embora a equipe gremista buscasse o gol, assim como o Náutico não conseguia finalizar com sucesso. Aos 28 minutos, eram marcadas 21 faltas e dois cartões amarelos, já repletos de jogadas agressivas e reclamações a etapa final se tornaria um caos. Aos 32 minutos, Domingos cometeu falta na grande área e o árbitro marcou penalidade máxima a favor do Náutico, Bruno Carvalho dirigiu-se para a cobrança e a bola explodiu na trave, para a calmaria dos corações apreensivos de uma nação e para o desespero de outra. A justiça começaria a ser feita.


Durante o intervalo de jogo, Mano pediu calma e inteligência ao grupo, para jogar. Na metade do segundo tempo, o placar ainda estava em 0 a 0, um resultado que colocava o time tricolor na elite do futebol brasileiro, mas o destino aumentou a aflição que os torcedores gremistas sentiam. Faltando onze minutos para o fim da partida, o árbitro Djalma Beltrami, marcou outro pênalti para o Náutico, foi nesse lance que toda a confusão começou, e três jogadores tricolores foram expulsos, um deles foi Patrício. O lance da expulsão do lateral-direito ainda repercute entre os torcedores. Indagado sobre o peitaço que deu no árbitro, o ex-jogador indagou que a atitude foi sem pensar.


O árbitro novamente marcou outro pênalti, sabia que a marcação estava errada, e resolvi argumentar... na hora não se pensa, se age!”. A expulsão fez com que Patrício não soubesse da defesa milagrosa de Galatto, seguido de um contra-ataque emocionante, que resultou em uma falta para o tricolor e a expulsão do jogador Batata, a qual proporcionou uma jogada veloz e certeira de Anderson e rendeu o gol da vitória. Foi no vestiário que ele e o dirigente, Paulo Pelaipe souberam do resultado.


O bom relacionamento com os torcedores gremistas fazem de Patrício, um ícone da raça e imortalidade do tricolor. Onze anos depois, o ex-jogador relembra com carinho dos momentos vividos nesta batalha. “Fiz a coisa mais certa do mundo, talvez se tivesse aceitado a marcação do pênalti e não tivesse reagido, não teríamos subido para a série A. Sentimento de ter feito tudo o que poderia, fiz o que qualquer torcedor verdadeiro faria”. Atualmente Patrício é dono de uma escolinha de futebol em Nova Hathz/RS. O sonho do ex-jogador é tornar-se treinador, e para isso é preciso dedicação e esforço.


Se não há justiça no universo do futebol, os deuses vestem o nosso manto. Fomos reféns das armadilhas impostas pelo adversário, fomos prejudicados pela arbitragem despreparada, nos tornamos vítimas das nossas aflições. Éramos sete homens em campo contra o tempo, diante de um jogo completamente anárquico em busca do nosso objetivo: subir para série A, voltar ao nosso lugar. Não era o bastante, não foi o suficiente, havia algo melhor para nós. Havia um jogo épico a ser escrito em nossa história.


Passados onze anos da maior façanha que o futebol já presenciou, vivenciamos tal feito como se fosse hoje. A narração nos arrepia, as imagens nos emocionam e nos orgulham, nosso coração palpitante traduz a adrenalina que sentimos, as lágrimas não pedem licença, apenas escorrem em nossos semblantes que carregam o olhar que brilha e o sorriso que agradece silenciosamente quem quer que tenha nos feito gremista. Aprendemos que não há glória sem luta, que não há caminho para o topo sem a queda, que os grandes caem com a cabeça erguida e vencem ajoelhados com a cabeça baixa.


Não nos interessa se jogas o mundial ou a série B, conhecemos tua história e honramos a tua camisa. Somos feitos da dor da derrota e do rebaixamento, somos feitos da emoção da superação e da alegria da glória. Somos feitos do amor imensurável e incontrolável. Não temos o que temer, não há do que se envergonhar. Na imortalidade escrevemos nosso nome e deixamos a marca da nossa história.

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