Brincadeira de criança

Atualizado: Jan 6

Quem na infância nunca brincou na rua de casa com os vizinhos, voltou pra casa sem os tampões dos dedões dos pés ou todo sujo não provou a felicidade. Daquele tempo em que só importava voltar da escola e se reunir com os amiguinhos para as mais variadas atividades. Umas delas, claro, o futebol.

A alegria daquela menina que conseguiu jogar com a turma composta na maioria por meninos. Cansada das bonecas e panelinhas dadas pelas tias nas festividades observava pela janela a movimentação na rua. Sempre pedia a chance aos pais de participar. A resposta era a mesma: futebol é jogo para os meninos. Não entendia essa separação. Não aguentava mais as primas que brincar apenas de casinha. Invejava os irmãos que tinham a oportunidade de ralar os joelhos enquanto jogavam. De tanto insistir finalmente teve sua chance.

Era uma tarde de sábado de sol escaldante. Em meio ao protetor solar e recomendações, aquela garotinha não conseguia conter a alegria de sair e aproveitar o que havia de melhor da infância. Nos seus tenros nove anos, desejava apenas se aventurar. A turma, composta por oito meninos e apenas uma menina, todos na mesma faixa etária estavam se organizando para uma peleja. A garotinha se aproximou tímida. Na troca de poucas palavras, ficou decidido que jogaria no meio do campo de linhas imaginárias. Não entendeu muito bem o que significava, mas aceitou.

Entre caneladas, chutões e quedas, seguiu. Ao escurecer, gritos que pareciam toque de recolher. Era hora de voltar para casa. Aquela menina voltou suja, com algumas bolhas nos pés e um arranhão no cotovelo. “Isso não é jeito de uma mocinha voltar pra casa”. Ela ignorou. Antes do banho se olhou no espelho. Seu rosto transbordava o mais puro sentimento. Aquilo era o início. Dia seguinte mesmo pedido e aventura. A volta era dolorosa, mas necessária.

A partir daquele dia, aqueles companheiros de bola se tornaram seus amigos inseparáveis. Antes não tinha uma opção de clube por não compreender. Com o passar do tempo já pedia para que os pais a levassem a um estádio. Primeira camisa, chuteira e preconceito. Era chamada de “sapatão”, mulher masculina, dentre outros apelidos ofensivos. Tentava ignorar. O tempo passou e o amor se fortaleceu. Apesar do preconceito, seguiu de cabeça erguida.

O futebol sempre reserva surpresas. A garotinha da história sou eu ou qualquer leitora apaixonada pelo esporte bretão. Quem uma vez prova dessa loucura insana jamais esquece. Das lembranças da infância, herança familiar ou qualquer outra situação, a paixão começa como uma mera brincadeira.

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