Pelada também é arte

Atualizado: Jan 6

O conceito de futebol-arte nunca fez tanto sentido. Atualmente, conquistar a vitória, apenas, não é satisfatório, é preciso fascinar – algo semelhante ao "vencer e convencer" tão requisitado pelos amantes desse esporte. Nota-se que, há tempos, o futebol não pode ser compreendido apenas como uma mera atividade física. O fato de ser o esporte mais praticado em todo o mundo deu ao futebol o status de produto midiático e criou uma relação de interdependência entre esporte e mídia – o futebol precisa da mídia para ser cada vez mais difundido e, por outro lado, as emissoras de televisão anseiam pela audiência que as partidas podem proporcionar.

A própria divisão do futebol já favorece seu caráter de entretenimento. Os dois tempos de 45 minutos com um intervalo de, aproximadamente, 20 minutos são fundamentais para a adequação do esporte à grade televisiva e às necessidades publicitárias. Além disso, a classificação dos times em séries (A, B, C e D, no caso do Campeonato Brasileiro, por exemplo) colabora para que o resultado da partida não seja tão previsível, já que os times estariam divididos da forma mais honesta e igualitária possível, aumentando, assim, o número de pessoas interessadas em testemunhá-lo.

No entanto, o fantástico e luxuoso mundo do futebol onde estão presentes desde chineses a sheiks árabes, que, com seus altos investimentos, “dão corda” para um futebol cada vez mais belo e disputado já é bem conhecido. A questão abordada aqui é outra, ainda mais complexa. Seriam as peladas parte desse espetáculo? A matriz bricolada do futebol, que tantas vezes, devido à ausência de recursos, é tida como o oposto do espetáculo, poderia integrá-lo?

Provavelmente, não, se for levado em consideração exclusivamente os eventos que integram as narrativas midiáticas. No entanto, o conceito de “espetáculo” não se restringe apenas a isso. Quando se fala em espetáculo, fala-se em “tudo que atrai a vista ou prende a atenção” e é isso que garante a inserção da bricolagem dentro das representações do futebol-arte.

É no universo das peladas que a criatividade torna-se protagonista. Faltam as grandes arenas, mas sobram as beiras-de- mar; faltam as avançadas tecnologias, sobra amor à camisa – ou à ausência dela; faltam traves e redes bem desenhadas, sobram alpargatas e a velha manha brasileira para diminuir a meta; faltam os camarotes, mas sobra a participação ativa e inclusiva; faltam regras mais rígidas, sobram minutos disponíveis para a partida, que sobrevive enquanto perdurar o ânimo dos participantes. Falta a bola? Não, essa é convidada de honra e uma das responsáveis pela propagação do esporte em todo mundo – como afirma José Miguel Wisnik, em sua obra Veneno Remédio, as crianças entendem a bola antes de decifrar as palavras.

Em virtude disso, as peladas seriam não só parte do futebol de espetáculo, mas uma das mantenedoras dele. Afinal, são poucos os jogadores que não iniciam seu percurso jogando nos campos menos glamourosos das várzeas e que não alimentam, a cada toque na bola, o sonho de se tornar um Olimpiano nacional. É o futebol praticado entre essas quatro linhas, nem sempre bem definidas, que constrói a identidade do país, e ressignifica o esporte, transformando o – temido por muitos – futebol monetarizado em futebol de sonhos – o verdadeiro espetáculo.

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