Gente é feita para evoluir – um perfil de Alberto Bial

Atualizado: Jul 25

Em alguns esportes, um segundo faz toda diferença. O basquete é um desses esportes em que a 60ª parte de um minuto pode levar um time do fracasso à glória – ou vice-versa. Como bom apreciador do basquete, os 64 anos de vida de Alberto Bial foram e são constituídos de vários segundos determinantes, que o transformaram em uma das maiores referências do desporto no Brasil.

O menino que nasceu em uma coxia de teatro teria talento para brilhar. Não nos palcos, mas nas quadras – também fora delas. Grande parte dos conhecimentos que o já conhecido jogador, e, aos 18 anos, iniciante na carreira de técnico, transmitia para os comandados foi adquirida das lições ensinadas pelos pais. É com admiração que Bial fala dos progenitores, alemães que se conheceram no Brasil após fugirem da Europa durante a Segunda Guerra, e do quanto aprendeu com eles. Aprendeu, por exemplo, como é saudável o hábito de cumprimentar; aprendeu a ter respeito; aprendeu que toda alma tem um pouco a ensinar. Mas a ordem natural da vida também se inverteu. Ao ver o filho iniciando a carreira esportiva, o pai abandonou os vícios em álcool e em apostas, e iniciou uma nova rotina, o que possibilitou um melhor destino às economias da família.

É com as características “simples”, “forte”, “arrebatador” e “vital” que Bial define o esporte. Inevitavelmente, parece ter se tornado sinônimo do companheiro de longa data. Fala, sem titubear, que “sem esporte não há vida”. Da mesma forma, afirmo que sem Bial não haveria esporte. Possuidor de muita fé, não só nas divindades, mas no homem, e dono de uma liderança nata, Alberto relembra a todos, de maneira sensivelmente peculiar, que derrotas e vitórias fazem parte do viver.

Dizem que os olhos são as janelas da alma. Mas a alma de Bial não parece ser do tipo que vê a vida através de janelas. Parece, sim, passar por várias portas, deixando-se um pouco em cada projeto de Alberto, sem nunca diminuir-se – muito pelo contrário. Mas, para não desmerecer o ditado, uma alma tão simples e, ao mesmo tempo, tão rica, não poderia ter escolhido janelas melhores. Os olhos do técnico são de um intenso azul, assim como a vista da varanda do lar em Fortaleza. Não se sabe ao certo se é o olhar que ganha cor ao refletir o mar ou o mar que ganha mais vida ao ser refletido no olhar de Alberto... Talvez ambas as possibilidades sejam válidas.

As palestras feitas em tantas cidades, certamente, já fizeram muitas crianças, jovens e adultos sonharem com um possível futuro no esporte. Elas também fizeram com que o próprio Bial descobrisse um novo mundo. Após visita a uma cidade no interior do Ceará, Alberto ousou esboçar um novo projeto, que, até mesmo para alguém com tanta experiência e maturidade, seria inovador – desenvolver uma equipe de alto nível longe dos grandes centros do Sudeste. Através da determinação de Bial, nasceu o Basquete Cearense, primeiro representante do Nordeste no Novo Basquete Brasil (NBB). Hoje, quase cinco anos após a fundação, Alberto segue fazendo a revolução que idealizou, no comando da equipe que, segundo as próprias palavras, é o maior motivo de alegria na carreira.

A precisão das mãos ao buscar uma cesta nos tempos em que foi jogador parece ter passado para as palavras. Bial acredita que as pessoas foram feitas para evoluir, e, com a sabedoria e o respeito que se fazem presentes em cada segundo de conversa, demonstra que a missão dele é, além de transmitir os preceitos do basquete, conduzir cada pessoa – cada alma – a refletir sobre a vida e sobre a veracidade e a paixão com que encaramos nosso dia a dia. Inclusive, para ele, os fundamentos do basquete são semelhantes aos da vida. E de vida e basquete, sabemos bem, Bial entende.

Alberto é uma antítese que se apresenta de forma tão amigável que ninguém ousa tentar compreender como pode caber um tanto de garra e de serenidade dentro de um ser só. Diz que não tem medo de lutar e, sim, não lutar com alma. Diz também que o principal legado que pode deixar é fazer com que digam: “Ele fazia as coisas com o coração”. Vou mais adiante. Além de agir com o coração, Bial age – e luta, sim – com alma. Porque somente quem batalha, joga e vive com alma é capaz de tocar aqueles que são treinados por ele, aqueles que o entrevistam e aqueles que têm a oportunidade de conhecer sua história.

Receba as novidades

do Futebol Por Elas

  • Facebook - Black Circle
  • Twitter - Black Circle
  • YouTube - Black Circle
  • Instagram - Black Circle