Semana do Goleiro: Lara, o craque imortal

Atualizado: Jul 24

Quando era criança, ouvia a história de um goleiro que defendeu um pênalti e depois morreu. Ficava pensando ‘esse sim deve ter amado o clube que jogou’. Sabe aquela ingenuidade que só as crianças têm? Pois é. Cresci, conheci a história do meu tricolor e a de Eurico Lara. Entendi o verdadeiro significado de CRAQUE IMORTAL. Aos vinte e três anos, continuo com a mesma ingenuidade de pensar ‘ele defendeu e amou o meu Grêmio até a morte’.


O Grêmio sempre foi um clube conhecido por formar grandes goleiros, e se engana quem pensa que esse reconhecimento só surgiu após a era Danrlei. Existe uma lenda, um símbolo gremista que está marcado no hino do clube: Lara, o craque imortal. Claro que muitos gremistas não sabem o motivo do nome de Eurico Lara estar no hino, mas quem conhece a história do tricolor dos pampas se emociona e sabe que a homenagem é apenas uma prova de merecimento a tudo que o craque imortal fez pelo Grêmio.


Tudo começou em 1897, quando o craque imortal nasceu em Uruguaiana, região da fronteira oeste do Rio Grande do Sul. Lara era tímido e reservado, porém, tinha talentos incomuns para a posição de arqueiro. Aos 18 anos ingressou no Exército, e foi aí que a sua carreira como jogador iniciou. Disputando os campeonatos internos do mundo militar que a fama de Lara se espalhou. Toda a região da fronteira sabia da existência de um arqueiro que, quando estava em campo, o time não perdia. O boato se espalhou até Porto Alegre, chegando aos ouvidos dos dirigentes tricolores, que rapidamente viajaram até a fronteira.


Engana-se quem pensa que foi fácil trazer o jovem arqueiro até Porto Alegre. Na época, Lara não queria sair de Uruguaiana, foi então que surgiu a ideia de fingir uma doença para conseguir a transferência militar e ficar na capital gaúcha. Aos 23 anos, mais precisamente em 1920, Eurico Lara era apresentado no Fortim da Baixada, o primeiro ‘ponta-pé’ para escrever o seu nome na história do clube tricolor. A chegada no Grêmio lhe rendeu um título, no mesmo ano em que foi apresentado, Lara conquistou o citadino.


Para nós, os nossos goleiros são sempre os melhores. Fazem as mais belas defesas e os mais lindos milagres, mas também sabemos que quando o nosso arqueiro é gigante até a torcida rival o aplaude. E foi exatamente isso que aconteceu com Lara. Em 1922, a Seleção Gaúcha enfrentou a Seleção Paulista, e neste jogo brilhou a estrela de Eurico, tanto que o goleiro gaúcho saiu ovacionado pela torcida paulista em pleno Pacaembu.


Vale ressaltar que a década de 20 era o início do futebol profissional no Brasil, e ter um goleiro como Eurico Lara era a sensação do momento, tanto que o jovem goleiro se tornou um ídolo do futebol gaúcho. Mas nem tudo era ouro na história do jovem, aos poucos foi descobrindo que tinha tuberculose (doença que matava naquela época). A doença agravada fez surgir outro problema: insuficiência cardíaca.


E era a tuberculose que iria afastar o arqueiro do Grenal Farroupilha realizado em 1935 (jogo em homenagem ao Centenário da Revolução Farroupilha). Internado e vetado pelos médicos dos jogos finais, Lara foi decisivo e um pouco teimoso: iria sim, entrar e jogar a decisão.


22 de setembro de 1935, essa foi a data oficial do último jogo de Eurico. Na decisão contra o maior rival do tricolor dos pampas, o arqueiro jogou apenas 40 minutos (nesta época os jogos duravam apenas 80 minutos). Fechando o gol e sendo a sensação daquele Grenal, Lara garantiu o 0 a 0. Saiu no intervalo do jogo, pois sentia fortes dores no peito. O empate dava o título ao rival, e a torcida vermelha já comemorava o título. Mas estamos falando de Grêmio, e quando se trata do Imortal sabemos que o placar nunca está definido. No segundo tempo brilhou a estrela de Foguinho e de Lacy, o Grêmio garantia a vitória e conquistava o título do Grenal farroupilha. Lara comemorou junto com os jogadores a conquista deste título, depois disso voltou ao Hospital Beneficência Portuguesa, debilitado e com a doença avançada, nunca mais saiu de lá com vida.


Morreu em 6 de novembro de 1935, um enterro que comoveu não apenas a capital gaúcha, mas todos que jogaram e viram a lenda em campo. Neste dia gremistas e colorados se reuniram para dar adeus ao grande goleiro. Lara deixava o mundo dos homens para se tornar imortal. Entre fatos reais e fatos inventados com o passar dos anos, Eurico Lara ajudou a construir uma das histórias mais lendárias do futebol brasileiro.


Ele não morreu defendendo um pênalti, e muito menos um pênalti batido pelo seu irmão. Ele enfrentou uma doença para fazer o que mais gostava: defender o gol. A história do goleiro que jogou debilitado e conquistou 16 títulos em 16 anos de Grêmio.


Eurico Lara é o único jogador imortalizado no hino de um clube. Uma simples homenagem feita por Lupicínio Rodrigues, autor do hino do Grêmio. Tenhamos certeza: as próximas gerações vão saber quem foi esse craque imortal, vão saber do seu esforço para defender as cores do nosso tricolor.


Títulos conquistados:

• Campeão da Cidade: 1920, 1921, 1922, 1923, 1925, 1926, 1930, 1931, 1932, 1933 e 1935 (último título conquistado)

Campeão Gaúcho: 1921, 1922, 1926, 1931 e 1932.

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