Além da regra do Impedimento - um perfil da assistente Carolina Romanholi

Atualizado: Mai 10


Ser mulher e torcedora ainda hoje é tarefa árdua. Ser torcedora é ter seus conhecimentos postos em cheque constantemente, por muitos que, com uma frágil pseudo-masculinidade, almejam invalidar a opinião de uma mulher pelo simples fato de ela ser mulher. Ser mulher e assistente de arbitragem, tendo postura ativa nos gramados de um esporte ainda tão masculino, então, é um desafio ainda maior. Ser árbitra de futebol é ser símbolo e sinônimo de resistência, é tornar-se a personificação da coragem, do empoderamento. Ser árbitra de futebol, no estado do Ceará, é exclusividade da fortalezense Carolina Romanholi Melo, 30, a única representante feminina no quadro de arbitragem da Federação Cearense de Futebol.

Carolina Romanholi, como é conhecida, entrou cedo no universo esportivo. Ainda menina, aos sete anos, já era jogadora de handebol. Jogou até os 16, quando outra paixão começou a despontar – a arbitragem. Decidida a enveredar pelos caminhos do apito, foi aconselhada a escolher outro esporte para que tivesse maior sucesso. Para alegria da mãe, acostumada a acompanhar o pai – avô de Carolina – nos jogos, e decepção do pai, que acreditava que o futebol não era lugar para mulher, Carol optou pelo esporte conhecido por ser a “paixão nacional”. A então adolescente que nunca havia posto os pés nas arquibancadas de um estádio já queria entrar pelo portão principal, à frente dos jogadores, como auxiliar de arbitragem. Seria uma das melhores decisões que poderia tomar.

Aos poucos, descobriu que o estádio era um dos locais onde mais se sentia à vontade. Mas não é qualquer estádio, em qualquer ocasião. Carolina gosta mesmo é de um Castelão, um Presidente Vargas lotado. Sua concentração no jogo – por incrível que possa parecer – é diretamente proporcional ao tamanho da torcida que se faz presente nos gramados, apoiando os times que se desafiam. Resiliente e inabalável, nesses momentos Carolina demonstra a notável força psicológica que possui. Insultos? Palavras misóginas ou de baixo calão? São apenas estímulos para que a bandeirinha mostre, mais uma vez, o bom trabalho que vem executando desde o início da carreira.

Carol fala que, fora dos gramados, detesta ter de repreender alguém. No entanto, durante o trabalho, faz o que for necessário para impor sua presença. Não tem medo de lutar pelos direitos que possui, incluindo o de ser respeitada. Quando notou assédio por parte de outro integrante da arbitragem, não hesitou em procurar a Federação Cearense de Futebol, que, segundo Carol, “tomou as medidas cabíveis”. Mostrou-se, mais uma vez, forte, como quem não tem medo de afirmar e reafirmar seu lugar na sociedade. Não seria esse obstáculo que a faria desistir, ou que diminuiria o amor de Carolina pelo desporto, que tem um espacinho reservado em todos os aspectos da vida da fortalezense. Além do campo profissional, o esporte também foi responsável por apresentar à Carol o marido, o também árbitro Uilian Verly, a quem ela se refere com muita gratulação e afeto.

Acreditando que, de fato, a harmonia interior sempre deve prevalecer, Carol fazia esse sentimento de satisfação consigo emanar durante a entrevista, em cada resposta. Fazia-se bela ao relembrar os desafios já superados. Entre esses desafios, inclui, orgulhosa, as várias vezes em que já foi aprovada em testes físicos feitos para o padrão masculino – já que trabalha em jogos de campeonatos masculinos, Carol precisa superar avaliações como essas –, conquista que alguns homens, inclusive, não alcançam. Orgulho, gratidão e coragem emolduravam a fala e os gestos de Carolina, e podiam ser notados em cada palavra, em cada brilho no olhar ao falar da paixão - e do vício, como chama - pela arbitragem e dos futuros projetos para a carreira.

Já formada em Educação Física, Carolina agora segue os caminhos que a direcionam a contar histórias nas quais sempre foi uma das protagonistas. Cursando Jornalismo, Carol busca adquirir o outro lado do conhecimento necessário para ser comentarista de arbitragem nas emissoras de televisão - ainda que a formação não seja exigida para o ofício. Se alguém ousar duvidar da sua capacidade ou do caminho que percorreu até alcançar o almejado cargo, a resposta já parece estar na ponta da língua: “Sou formada, sim, e sei o que estou fazendo!

Carolina sabe que o esporte pode fazer a diferença na vida das pessoas e ela, através da coragem, vem fazendo a diferença no mundo do esporte. Nos gramados, mais do que saber o que é a tradicional regra do impedimento, é ela que a coloca em prática. Agora, não só nos campos, como fora deles, parece lutar contra uma outra regra do impedimento, também tradicional, mas, esta, imposta pela sociedade. A regra que busca deslegitimar o direito das mulheres de terem opinião opinião própria. Com sua presença marcante nos estádios cearenses, Carolina Romanholi nos mostra que ser mulher assistente de arbitragem é buscar punir não só posicionamentos adiantados, mas também, valores e pensamentos retrógrados. Ser bandeirinha é provar que a mulher é livre para ocupar o lugar que bem entender, e que isso não lhe será retirado – ou impedido.

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