Homofobia no futebol brasileiro: caso Richarlyson

Atualizado: 26 de Jul de 2020

Depois de uma passagem pelo futebol da Índia no ano passado, Richarlyson está de volta ao Brasil. Aos 34 anos, foi apresentado na última segunda-feira no Brinco de Ouro. É um jogador que já conquistou 14 títulos em sua carreira, incluindo um Mundial Interclubes em 2005 e três Campeonatos Brasileiros pelo São Paulo, além de uma Libertadores em 2013 defendendo o Atlético Mineiro.

Com todo esse currículo o foco dessa matéria deveria ser a chegada de um jogador técnico e experiente, com capacidade para ajudar muito o Guarani em uma difícil competição. Mas, infelizmente, a vinda de Richarlyson foi ofuscada pelo preconceito. Minutos antes da apresentação do volante, dois torcedores bugrinos atiraram bombas em frente ao Estádio Brinco de Ouro como forma de protesto pela contratação. A diretoria alviverde prestou queixa no 10º Distrito Policial de Campinas e ressaltou que a manifestação isolada não reflete o pensamento de sua torcida.

Na internet, a maioria da torcida prestou apoio à chegada de Richarlyson na página oficial do Guarani, porém, tanto rivais, quanto bugrinos publicaram insultos e piadas homofóbicas sobre o volante. O vereador Jorge Schneider (PTB) também ironizou a contratação do jogador na internet “A pessoa certa no lugar certo”, comentou. Uma carreira marcada por preconceito por onde passou.

Embora nunca tenha se declarado gay, o volante convive há muito tempo com a homofobia no futebol. Durante cinco anos no São Paulo, Richarlyson viu a torcida ignorar seu nome enquanto cantava o restante da escalação titular no Morumbi e era alvo de ofensas das principais organizadas do Tricolor. Em 2007, o dirigente do Palmeiras, José Cyrillo Júnior, insinuou que o jogador era gay em um programa de televisão. Richarlyson processou o cartola por calúnia, mas a ação foi arquivada. O juiz Manoel Maximiano Junqueira Filho, da 9ª Vara Criminal de São Paulo, sentenciou que “futebol é jogo viril, varonil, não homossexual”. Em 2011, o Palmeiras desistiu da contratação do volante após protesto da torcida, que levou faixas em frente ao clube estampando “a homofobia veste verde”. Mas eles estavam errados. A homofobia, na verdade, está em todas as cores, de todos os times.

Homofobia no futebol Brasileiro

O país do futebol também é um lugar no qual, a cada 25 horas, pelo menos uma pessoa lésbica, gay, bissexual, travesti ou transexual é assassinada - dado estarrecedor. Por este e outros tantos motivos, digo que não, não é mais possível ficar passando pano para torcedores babacas que jogam bombas e cometem outras atitudes agressivas vociferando que futebol é "coisa de macho", normalizam comportamentos preconceituosos dizendo que são apenas "piadas" e tomam atitudes como chamar adversários, usando conotação pejorativa, de "viados". Mais recentemente, a moda passou a ser o grito de “bicha” quando o goleiro adversário cobra o tiro de meta.

Difícil e incompreensível é a homofobia no futebol. Mas se o futebol já se provou tantas outras vezes capaz de dar exemplos positivos, por que não acreditar que é possível dar esse exemplo também? É um esporte capaz de reunir pessoas de diferentes idades, raças, nacionalidades, sexos e gêneros em torno do objetivo único em comum de colocar a bola entre duas traves mais vezes do que o adversário, por que não acreditar que seria possível reunir pessoas em torno da luta contra o preconceito também?

Eliminando Preconceitos

Duas equipes rivais de Londres chamaram atenção ao compartilhar de um princípio: a criação de suas próprias organizadas LBTS. Os blues anunciaram a criação de seu primeiro grupo de torcedores homossexuais em fevereiro de 2016. A mesma ideia fundamentou a criação da Gay Gooners, três anos antes. A torcida LGBT do Arsenal reuniu nos primeiros oito meses 100 adeptos e animou o criador Selby. O torcedores gays do Arsenal ganharam apoio até que o clube reconheceu sua existência e autorizou a instalação da bandeira do grupo no Emirates Stadium (na Inglaterra bandeiras de organizadas só são permitidas com autorização prévia ao clube). Lá a homofobia nos estádios é reprimida com medidas severas. E jogadores podem ser punidos com cartões ou advertências mais duras, torcedores que fizerem manifestações preconceituosa em geral podem ser banidos dos estádios ou até presos. Por esse motivo ao pouco a tolerância e à diversidade vem se expandido.

Enfim, a homofobia e os demais preconceitos não são “mimimi”, e quem diz que se impor a esses preconceitos é estragar o futebol estão completamente errados e doentes. Futebol tem que ter diversão, rivalidade sim, mas com moderação. Independente do entendimento, a homofobia deve ser fortemente combatida não somente no futebol, mas em todos os setores da sociedade e nada melhor que o esporte mais popular do Brasil para dar o exemplo. Porque futebol não é “pra homem”, futebol é pra quem gosta de futebol, simples.

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