O futebol no armário: até quando?

Atualizado: Jul 26

No domingo, 21, o Real Madrid foi campeão da temporada 2016/17 da La Liga. Dentre os vários desdobramentos e enfoques que as matérias poderiam ter sobre esse dia, uma chamou mais atenção: o suposto beijo que o jogador Isco deu no zagueiro Sergio Ramos. E foi aí que, mais uma vez, começaram a se desenrolar uma série de comentários extremamente homofóbicos e que merecem ser analisados com atenção.

Para contextualizar: Sergio Ramos estava dando uma entrevista durante a noite de comemorações do título, e Isco chega perto e dá o que seria um selinho no zagueiro do Real. Falo o que seria porque, por outro ângulo, dá para ver que não foi bem assim. Mas, mesmo se fosse, o que foi disseminado pelos sites, além da provável intenção sensacionalista de conseguir visualizações, trouxe à tona, por meio dos comentários, uma parte ainda obscura do futebol e da sociedade: a homofobia. Que fique bem claro que não importa se houve ou não o beijo, ou qualquer coisa nesse sentido. A questão é bem mais ampla.

A homofobia é algo que infelizmente ainda está inserida na sociedade. O futebol, especificamente, foi considerado por anos e anos como um esporte coordenado por homens, praticado por homens e apreciado por homens. Por isso, ainda é visto como “coisa de homem” e, tudo o que saia do contexto relacionado ao masculino nesse esporte, é visto com um pouco de desdém.

São vários os casos de homofobia no futebol mundial. Recentemente, a CBF foi multada em 65 mil reais pela Fifa. A punição foi por causa dos gritos de “bicha” da torcida a cada vez que o goleiro da Colômbia batia o tiro de meta, em jogo das Eliminatórias. Esse é um costume que foi se espalhando por toda a América Latina desde a Copa do Mundo. A Fifa puniu não somente o Brasil, mas também outros países que têm esse costume, como México, Argentina, Chile, Paraguai e Peru.

Além disso, em março deste ano, Eurico Miranda, presidente do Vasco, destilou uma série de comentários extremamente preconceituosos. Segundo reportagem de Mariliz Pereira Jorge, do jornal Folha de S.Paulo, o dirigente falou coisas do tipo: “Sou contra o gay espalhafatoso. Todos têm direito de ter a sua opção. Só não pode agredir o outro" e "o árbitro gay pode tender para o namorado dele. Todo gay tem namorado. Ele é gay, tem que ter namorado". E o pior: a repercussão dessas declarações foi mínima. Isso foi naturalizado, mais uma vez, por causa daquela impressão de que o futebol tem que ser “coisa para macho”.

Finalmente, o caso Richarlyson. Em 2011, o Palmeiras desistiu da contratação do jogador após protesto de uns poucos torcedores com a faixa: “A homofobia veste verde”. Infelizmente, a homofobia não veste só verde, mas carrega todas as cores. Obviamente, esse não era o pensamento da grande maioria da torcida alviverde, mas a manifestação de alguns foi o suficiente, talvez, para barrar a entrada do jogador na equipe. Já em maio deste ano, o Guarani de Campinas anunciou a contratação de Richarlyson. Isso foi o bastante para alguns torcedores atirarem bombas em frente ao estádio do clube e para o jogador ser alvo de preconceito disfarçado de “piada”.

Ações contra homofobia

Felizmente, ao mesmo tempo em que são recorrentes os casos de homofobia, tem sido cada vez mais frequente atitudes de torcidas para combater esse tipo de preconceito. Por mais tímidas que ainda sejam, elas existem. As torcidas do Arsenal, da Inglaterra, do Portland, dos Estados Unidos, e do St. Pauli, da Alemanha, já demonstraram apoio por meio de diversas ações, tanto dentro quanto fora de campo. Aqui no Brasil também existem torcidas LGBT, como a Galo Queer e a Gaivotas Fiéis, entre outras.

É fundamental que a homofobia no futebol seja discutida e posta em pauta. O esporte que possui mais adeptos ao redor do mundo, que abriga homens, mulheres, crianças, idosos, precisa buscar uma solução efetiva para toda essa situação. Em campo, o espetáculo não pode parar. Fora dele, é preciso discutir temas como esse e redescobrir a verdadeira essência do futebol: a empatia e o amor.

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