Qual o sentido?

Atualizado: Jul 26

Acho ele supervalorizado”. Se os gols que marcou em todos os rivais do Botafogo não fizeram ser temido pelos adversários, sem dúvida essas três palavras tornaram Roger um verdadeiro desafeto da torcida do Flamengo. Os rubro-negros, fanáticos que são, não pouparam xingamentos e respostas que consideraram à altura do desdém. O último Clássico da Rivalidade não saiu do 0 a 0, mas foi suficiente para que boa parte dos flamenguistas pegassem no pé do “God of clássicos” carioca por não ter marcado contra o Mais Querido.

Guerrero é um jogador exaltado pela mídia sim, mas diante da sua qualidade técnica e uma relação vitoriosa com o rubro-negro carioca, fica difícil questioná-lo; no máximo a quantidade alta de gols que perde ou o número de faltas que comete, mesmo que sem querer em boa parte das vezes. Mas isso não é motivo para desdenhar um atacante com um currículo do porte do peruano. Não é difícil imaginar porque Roger questionou um dos maiores atacantes em atuação no Brasil: rivalidade. Dificilmente ele havia feito uma análise minuciosa da carreira do camisa 9 ou coisa assim antes de falar.

Não é de hoje que Fla e Fogão se estranham; é assim com as diretorias – ou pelo menos, a alvinegra –, com ambos os torcedores, os jogadores. A rivalidade ensina o indivíduo a desgostar do rival e de tudo que vem dele. O torcedor que nunca fez pouco do craque do maior rival que atire a primeira pedra, não é? A declaração foi meio infeliz, mas Roger foi o fruto de um sistema muito antigo no futebol. Sistema que ocasionalmente faz as pessoas passarem dos limites no que diz respeito à uma rixa que só deveria existir dentro das quatro linhas. E ele se tornou vítima desse mesmo sistema ao qual se submeteu. Xingado, hostilizado. O sistema nunca lembra aos torcedores que, apesar de tudo, estão lidando com seres tão humanos quanto eles.

O mesmo Roger mostrou, nessa semana, que talvez não seja o “cara mau, arrogante e invejoso” que a torcida rival imagina que seja. O atacante viu a filha de 11 anos ter um dos melhores momentos de toda a sua vida. A menina, que não enxerga desde que nasceu, recebeu de presente um quadro em alto-relevo que retratava três lances do gol do pai contra o Sport, pela Copa do Brasil, permitindo assim que ela pudesse visualizar a jogada do seu jeito. Giulia sempre comemorou os gols do pai mesmo sem vê-los, e pela primeira vez ter a chance de enxergar o lance com os olhos da alma sem dúvidas aprofundou os laços familiares que já eram visivelmente fortes.

Giulia confirmou com o pai se o gol havia sido lindo, mas foi só modo de dizer. Ela tinha certeza de que havia sido. Esse poderia ter sido só mais um gol, mas, depois da experiência, com toda a certeza ele não será esquecido tão cedo por ela e pelo atacante. Sem clubismo, há de se desconfiar de uma pessoa que, independente do time, não tenha conseguido notar e não tenha admirado o amor e a gratidão expressa na atitude e na fala de Roger, que ali não era jogador, mas algo mais especial: era pai, assim como João Paulo e Rodrigo Pimpão ali se tornaram Tio João e Tio Pimpão.

Sem sombra de dúvidas, o rival ou mesmo o torcedor que já o diminuíram de alguma maneira pararam para refletir após esse episódio tão especial. Mesmo vestindo alvinegro quando está dentro de campo, ele ainda é humano. Ainda é pai que preza pela família e pela filha que considera especial e querida, assim como tantos outros jogadores que vestem a camisa do time mas ainda são pessoas que sentem, que amam e que são amadas, pessoas que têm filhos, pais, cônjuges. Diante disso tudo, a rivalidade exacerbada que leva pessoas a se ofenderem, se odiarem e até a se agredirem perde cada vez mais o sentido; se é que já teve algum.

Futebol é amor e não ódio. Pena daqueles que podem ver, mas não vêem ao seu redor. Que enxerguemos mais as coisas como a Giulia faz: com a alma.

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