Maestro que conduz com a alma e os pés

Atualizado: Jul 26

Era um 30 de Junho que poderia ser como qualquer outro, mas não daquela vez. Não em 2016.

O goleiro Fabiański não segurou o último pênalti de Portugal. O cobrador da penalidade caiu no chão sem conseguir parar de chorar, e logo foi abraçado pelos companheiros. Devido à adrenalina e ao stress, talvez o seu coração estivesse a pulsar freneticamente naquele momento – justamente debaixo do escudo da “Seleção das Quinas”. Não era difícil de ouvi-lo porque, junto com o seu, batiam mais de 11 milhões de corações. Corações modestos, mas cheios de vontade de crescer; apaixonados pelo seu pequeno e belo país tal como o dono da camisa 20 que, naquela ocasião, se consolidou como um herói.

Não que Portugal precisasse de um herói. Já tinha o Ronaldo, certo? Errado!

Aos olhos dos mais técnicos, a Seleção Portuguesa se escorava em um único homem, o que há pouco tempo não era uma mentira. Mas, naquele 30 de junho, todos tiveram a certeza de que muita coisa havia mudado. O capitão não estava mais sozinho. O time já não estava mais tão desamparado como costumava ser. Portugal não era só 1, mas 11. E 11 não eram apenas 11, mas traziam consigo 11 milhões. Aquela expressão de emoção foi muito além de simples lágrimas. Mesmo no chão e cercado pelos colegas e, não literalmente, Quaresma levantou-se, bateu no peito, apontou para o chão e disse “eu estou aqui”. Sim, ele precisava confirmar isso. O atacante ficou longe da camisa vermelha e verde nas Copas de 2006, 2010 e 2014 – o que talvez explique, em partes, as campanhas fracas de Portugal nas competições, e quem lhe deu uma nova chance foi Fernando Santos, atual técnico da Seleção Portuguesa. A decisão se mostrou acertada. O que ele fez na Euro 2016 sem dúvidas foi um dos maiores diferenciais do time português, então, não era inacreditável que só agora, ou finalmente, ele estivesse ali? Foi com a exposição dos seus sentimentos que o camisa 20 garantiu à tão fiel torcida que ela poderia contar com ele.

As lágrimas, com toda a certeza, não foram apenas de emoção e de alegria. Foram de incredulidade. Seu currículo era cheio e ao mesmo tempo vazio. Com passagens por grandes times como Barcelona, Inter de Milão e Chelsea, onde ele pouco fez, e por clubes com menos reconhecimento mundial como Sporting, Porto e Besiktas, onde deixou sua marca. Como esperar que fosse justo ele a decidir momentos tão importantes? Naquela reflexão entre o copo meio cheio ou meio vazio, pode-se dizer que a trajetória de Quaresma é um copo que, antes meio cheio, passou a transbordar quando ele voltou à Seleção Nacional. Ele não foi unanimidade em todos os clubes que passou, mas quando decidia brilhar, o fazia com maestria. Por sinal, “Maestro” é um dos seus tantos apelidos. Nomes como “Mustang”, “Harry Potter” e “Cigano” que, no final, resumem um único homem, um atleta dedicado, um jogador com muita velocidade e habilidade, responsável por trazer vida a um ataque que às vezes respira por aparelhos. Ele não é dos mais goleadores, mas joga pro time, o que é fundamental. E o pé direito, ah, é a fonte de todo o seu talento.

Talvez não seja exagero dizer que Ricardo Quaresma é o que Portugal precisava. Maturidade para trabalhar um elenco que nem de longe é tão fraco quanto pode soar, coletividade, espírito de liderança. Tudo que era necessário para conquistar mais que o amor incondicional da torcida, mas a sua confiança, veio principalmente com ele. Antes tarde do que nunca, ele chegou para cativar um espaço o qual já lhe pertencia antes mesmo da sua chegada; talvez nem mesmo os portugueses percebessem que precisavam de alguém como ele, com o seu talento, a sua garra e a sua paixão. As lágrimas naquele 30 de Junho não só confirmaram isso, como o consolidaram.

A Seleção das Quinas estava feita! Tinha agora, dentro de campo, alguém tão fiel quanto um próprio adepto, dotado da gana que faltava a uma seleção que sonhava em, um dia, ser grande. Sonho que hoje parece ser mais próximo do que já chegou a ser em algum momento, sonho que, agora, pode se tornar realidade através de um maestro que conduz com a alma e faz música com os pés.

Receba as novidades

do Futebol Por Elas

  • Facebook - Black Circle
  • Twitter - Black Circle
  • YouTube - Black Circle
  • Instagram - Black Circle