Amor não tem preço

Atualizado: Jul 26

Os mais céticos que me perdoem, mas o amor é fundamental. E não me refiro ao amor idealizado, distante, clichê com o qual tantas pessoas passam a vida sonhando, mas sim ao amor mais forte e puro do qual se tem conhecimento: o amor ao futebol. Desse não há o que falar; alguém já encontrou um sentimento tão resistente e altruísta quanto esse? Milhões de torcedores que não arredam o pé do clube do coração de jeito nenhum, que fazem o possível e o impossível para se manterem por perto, principalmente porque, nesse tipo de relação, uma TV de tela gigante não é suficiente para renovar o carinho e a apreciação.

A torcida do Flamengo não se cansa de cantar “eu sempre te amarei/onde estiver estarei”. A paixão dos mais de 40 milhões de rubro-negros é avassaladora, talvez poucas torcidas no Brasil se assemelhem à ela. A Nação é literalmente uma nação, é uma massa, algo poderoso o suficiente para ser chamado de “entidade”. Os torcedores fazem parte do Clube de Regatas do Flamengo, um conjunto que envolve diretoria, jogadores e torcida e que, sem um desses, não consegue ir para a frente. Mario Filho retratou em seu livro “O Negro no Futebol Brasileiro” que a origem do Mais Querido de popular não teve nada. Time de elite, seleto e, por isso, menos convidativo do que outros, como o Vasco. Mas as coisas não permaneceram dessa maneira. Nos anos 30, uma nova gestão priorizou analisar e adotar um plantel mais democrático, a aquisição de um campo próprio – o terreno da Gávea – e utilizar a imprensa e a área de comunicação em geral para melhorar a imagem do clube e torná-lo maior. As mudanças se revelaram coerentes e bem sucedidas. O time antes isolado na mais alta camada social agora alcança as classes menores e, aos poucos, dá origem ao mito de “maior torcida do mundo”.

Como todo bom apaixonado que deseja estar perto de sua alma gêmea, a torcida deseja estar perto do seu time, torcendo, acompanhando, seguindo-o onde quer que ele vá. Soaria injusto tirar isso da torcida diante de tamanha devoção, não é? E isso é justamente o que a diretoria do rubro-negro carioca tem feito nas últimas semanas. A polêmica mais recente da FlaTT foi a respeito do aumento no preço dos ingressos para a Ilha do Urubu, a nova casa do Flamengo. Ingressos com preços populares se tornaram coisa do passado; atualmente, a necessidade de renda alta para cobrir as despesas gastas a cada jogo passou a ser maior do que o maior patrimônio do clube: o torcedor. Ainda, além disso, uma mudança no programa de sócio torcedor não agradou também; a nova regra define que sócio torcedores terão direito à apenas uma modalidade de desconto, tendo que escolher entre o desconto de ST ou a meia entrada regulamentada por lei.

O principal argumento utilizado por representantes da diretoria rubro-negra de modo a justificar ingressos na faixa dos R$150 até R$200 é a de que tal medida tem como objetivo incentivar os torcedores a fazerem parte do programa de sócio torcedor. O argumento parece piada levando-se em conta que se refere à uma torcida gigantesca, cuja maioria é formada por pessoa das classes C e D. Teriam elas mesmo condições de se manter em um programa de sócios torcedores? Não foi à toa que o mesmo representante alegou que a Ilha era um estádio para sócios, já que eles eram os únicos que ainda tinham certa condição de pagar por um ingresso. É difícil expressar o quão triste essa situação é, principalmente para flamenguistas, que se já não ouviram relatos históricos de quando mais de 100 mil rubro-negros transformavam o Maracanã em um caldeirão, já viram com os próprios olhos e hoje se veem obrigados a se submeter aos preços abusivos ou, se preferir, ir para casa ou para o bar.

O Flamengo, que se tornou com muito trabalho o “time do povo” está caminhando para perder o posto. Assim, ficam excluídos do espetáculo do futebol idosos, deficientes, estudantes de baixa renda, pais de família, famílias inteiras, justo eles, mais alguns “Silvas” ou “Santos” cujas estrelas ainda brilham mas se enfraquecem pela saudade do seu maior amor, o seu time. Afinal, seria essa a melhor opção de incentivo ao programa de sócio torcedor? O amor passa a ter preço dentro do futebol? E, acima de tudo: isso é mesmo Flamengo?

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