Laranja é a cor da paz

Atualizado: Jul 25

São inúmeras as histórias que relatam os momentos em que o futebol “parou” a guerra: nas trincheiras da Primeira Guerra; no Congo, pelo escrete liderado por Pelé; na Ucrânia pelo FC Start; no Haiti, pela Seleção Brasileira. Essa, porém, é mais recente do que se pensa e tem um protagonista que, há pouco tempo, jogava e encantava em um dos maiores clubes da Europa. Didier Drogba nasceu na Costa do Marfim e, muito novo, mudou-se para a França, onde nasceu a sua carreira futebolística. Depois de passar por alguns times de menor expressão, transferiu-se para o Olympique de Marseille, onde explodiria e chamaria a atenção do Chelsea, clube onde permaneceu por 8 anos. Em meio à uma carreira tão bem sucedida, talvez nem mesmo o próprio jogador imaginasse que seria responsável por trazer a paz ao seu país de nascença, um território que há tanto sofria por disputas e guerras civis e que via no futebol uma válvula de escape, uma das poucas razões para se orgulhar de seu nome e de sua bandeira.

A Costa do Marfim, país africano localizado na África subsaariana, é rica em diversidade de cultura, mas falha no índice de desenvolvimento humano. Contando com uma das mais altas taxas de mortalidade infantil e de analfabetismo, a situação do país, que até então era um dos mais prósperos do Oeste do continente, chegou à esse estado após a eclosão de uma revolta em Setembro de 2002, que deu origem à chamada Primeira Guerra Civil da Costa do Marfim. O levante teve início com o motim realizado pelas tropas insatisfeitas com a desmobilização do Exército e teve adesão dos muçulmanos do norte que protestavam contra a marginalização de sua classe e de seus líderes.

A revolta se estendeu por anos e dividiu o país, que foi assolado pelas disputas internas entre os rebeldes e as forças armadas locais. Porém, a população que se tornou refém do conflito pôde encontrar alento no futebol. Puderam comemorar, em 2005, a inédita classificação de sua seleção nacional para a Copa do Mundo de 2006, após vencer o Sudão nas eliminatórias da competição, na qual Drogba, recém-campeão inglês pelo Chelsea, havia marcado nove gols. Considerado a maior estrela do futebol da Costa do Marfim, o atacante transformou a sua moral e influência em uma “arma” para propagar a paz. Após a histórica conquista, o jogador tomou a palavra para si e pronunciou o discurso que traria consequências que talvez nem mesmo ele imaginasse para seu país.

“Homens e mulheres do norte, do sul, do leste e do oeste, provamos hoje que todas as pessoas da Costa do Marfim podem co-existir e jogar juntas com um objetivo em comum: se classificar para a Copa do Mundo. Prometemos a vocês que essa celebração irá unir todas as pessoas. Hoje, nós pedimos, de joelhos: Perdoem. Perdoem. Perdoem. O único país na África com tantas riquezas não deve acabar em uma guerra. Por favor, abaixem suas armas. Promovam as eleições. Tudo ficará melhor. Queremos nos divertir, então parem de disparar suas armas. Queremos jogar futebol, então parem de disparar suas armas. Tem fogo, mas os Malians, os Bete, os Dioula... Não queremos isso de novo. Não somos xenófobos, somos gentis. Não queremos este fogo, não queremos isto de novo."

As palavras pacíficas de Drogba provocaram o início das conversas entre os dois lados do conflito que levariam, algum tempo depois, ao acordo de paz e cessar fogo que deu fim à guerra civil. Dois anos depois, Drogba surgiu novamente em nome da paz; dessa vez, o jogador pediu que a partida contra a seleção de Madagascar, válida pelo campeonato continental africano, fosse realizada em Bouaké, a capital rebelde. E assim foi. Em 2007, há exatos 10 anos, a seleção dos “Elefantes” motivou mais de 25 mil presentes a cantarem o hino de seu país, juntos, e derrotou o adversário por 5 a 0, no jogo que o então presidente Laurent Koudou Gbagb assistiu ao lado do líder rebelde Guillaume Kigbafori Soro.

Aquela foi a primeira vez em que soldados do governo puseram os pés na capital rebelde e, naquele mesmo ano, um acordo político foi assinado com o objetivo de reunificar o país e realizar novas eleições. De lá para cá, Drogba só se afirmou ainda mais como jogador e ídolo, mas o seu papel como herói e embaixador de um esporte que traz união e conciliação sem dúvidas o fizeram ainda maior do que ele já é. Por 90 minutos, mais um confronto foi deixado de lado graças ao futebol, que deu o pontapé inicial naquilo que todos os cidadãos desejavam tão profundamente: a paz.

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