Dos amores és o maior

Atualizado: Fev 14

Há um ditado popular que diz que amor não se escolhe. Peço espaço para contar um pouco da minha história com meu clube do coração e provar que é possível sim (com devida sinceridade) a mudança de torcida.

A escolha, na maioria das vezes, surge por influência de terceiros: família, amigos ou namorado (a). No meu caso, foi por região: residente da zona leste de São Paulo e vizinha do Parque São Jorge, via no Sport Club Corinthians Paulista algo bom. Afinal, uma grande parcela torcia pelo alvinegro, celebravam os dias de jogos (principalmente os dominicais) com rojões e balões as poucas horas da manhã. Em meio a festejos, criei uma concepção positiva e decidi que essa seria minha escolha. Mesmo não sendo daquela de usar camisas e frequentar a cancha, muito disso pelos meus pais acharem absurdo uma menina querer frequentar tais lugares e pelo preconceito existente (“estádio é lugar de bandido”, “torcidas organizadas não prestam”, “se usar essa camisa apanhará”) me resignei a acompanhar pelo sofá de casa.

A partir da autonomia que a idade garante, a libertação de maus relacionamentos e a expansão da visão com relação ao futebol, decidi que assistiria a uma partida in loco. Escolhi um péssimo momento pensando na mercantilização do esporte e o principio da febre das arenas. Por isso, resolvi que acompanharia em um local neutro onde eu pudesse sentir de verdade o que era uma bancada. Essa escolha, lugar no qual eu já havia recebido inúmeros convites para conhecer (obrigada amigas da faculdade), se tornaria meu templo: Estádio Conde Rodolfo Crespi, ou Rua Javari do Clube Atlético Juventus.

A minha primeira visita, acompanhada de uma dessas amigas, foi preparada por conselhos como: “olha, se prepare porque o Juve está numa péssima fase e pode ser que perca hoje”. Apesar disso, não me importei. Ao adentrar aquele simpático estádio, meu coração disparou e senti um arrepio. Havia algo naquela atmosfera que me chamava à atenção. A torcida, as cores grená e branco, o escudo com a letra jota, tudo me aguçava. A partida em si, pela Copa São Paulo de Futebol Júnior, ficou no empate e na desclassificação do time na competição. Esse detalhe não me importou. A estreia da equipe principal no Campeonato Paulista seria dentro de duas semanas e foquei apenas no meu retorno.

Foram duas longas semanas de espera. Minha ansiedade pela partida a ser disputada em um domingo de amanhã (jogos de séries inferiores ocorrem nesses horários) era maior que qualquer outro sentimento. Quando o tão aguardado dia chegou, havia dormido poucas horas. Não pelas boemias costumeiras, mas pela animação que me contagiava. Estreia com vitória. Saí radiante. Aos poucos, sentia arrependimento por não ter tido coragem antes de embarcar nessa jornada. Cada disputa, manhã de sol, tarde de chuva, caravana, compra de produtos oficiais, derrota, empate, vitória, me faziam querer mais.

Nessa altura, já não havia mais espaço em meu coração para dois clubes. O que a principio parecia ser febre passageira, criou raízes resistentes. Há quem consiga ser dos famosos “mistos” que existem por ai. Só conseguia enxergar apenas uma bandeira. Mesmo sabendo das limitações, problemas, más fases, crises administrativas, não sabia mais viver sem esse simpático moleque travesso de 92 anos. Apelido esse dado pelo jornalista Thomaz Mazzoni na década de trinta graças às travessuras que aprontava em cima dos clubes de expressão da capital paulista. Dos que sofreram com nossas traquinagens, o mesmo Corinthians, aquele do começo do texto.

Hoje, meus domingos sem essa atmosfera são vazios. A dor impera quando não consigo segui-lo, mesmo que eu faça um grande esforço. Só quem se perdeu num amor louco consegue compreender essa máxima. Mesmo que soe como exagero, não há títulos, colocação na competição ou derrotas que mude. “De janeiro a janeiro, até o mundo acabar".

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