Quando a cobrança e a rivalidade extrapolam o bom senso

Atualizado: Jul 26

Desde os 12 anos sou apaixonada por futebol. Não sei ao certo como isso aconteceu, só lembro de acordar cedo todos os dias das minhas férias para assistir aos jogos da Copa do Mundo de 2010. A partir de então, escolhi meus times do coração, e os acompanho até hoje. Apesar de ser uma torcedora muito apaixonada, a única experiência que já tive em estádio foi para assistir a um jogo da Seleção Brasileira Feminina, e foi incrível. Única porque meus pais nunca permitiram que eu assistisse à nenhum jogo do time que torço no estádio. A desculpa para isso era sempre de que “era perigoso demais”. Sempre achei isso uma besteira, afinal, qual aficionado por futebol não deseja ver de perto seu time jogar? Só que, de uns tempos para cá, está realmente ficando perigoso. Fico muito assustada com a ideia de ir ao estádio (não é algo que eu queira tanto quanto antes, infelizmente). Brigas constantes, que deixam pais, mães e crianças reféns de uma guerra que ninguém entende o motivo.

Três dos episódios mais recentes de violência nos estádios ajudam a mostrar como o esporte mais popular do Brasil começa a se tornar vítima desse problema tão sério da nossa sociedade. Há três semanas, no clássico entre Goiás e Vila Nova, pelo Campeonato Brasileiro Série B, o resultado do jogo foi o menos noticiado. O que foi mostrado parecia mais com um cenário de guerra do que com um espetáculo do esporte. Antes mesmo do apito inicial, no caminho para a partida, um torcedor do Goiás foi baleado por um grupo que estava com a camisa do Vila Nova. Após o fim da partida, (pseudo) torcedores começaram a brigar entre si até a intervenção da Polícia Militar (nem sempre bem preparada para lidar com esse tipo de caso) em uma parte do estádio que estava desativada. Balas de borracha, spray de pimenta, correria e confusão.

Em meio a todo esse caos, a cena de um pai com seu filho nos braços com as mãos para cima, como se estivessem dizendo “nós não fazemos parte disso” chamou atenção. Após tudo isso, restou ao Superior Tribunal de Justiça Desportiva do Futebol (STJD) pedir a interdição do estádio. O Goiás perdeu cinco mandos de campo e recebeu multa de R$ 40 mil, enquanto o Vila Nova perdeu quatro mandos e foi multado em R$ 30 mil. Inicialmente, ambos haviam recebido a sanção de jogar a 200 km de Goiânia. Agora, a pena estabelece que eles realizem partidas na capital, mas com portões fechados.

Uma semana depois, aconteceram mais dois episódios lamentáveis: um no jogo Inter x Criciúma, também pela Série B, no qual os ditos torcedores, após o empate, arremessaram barras de ferro, pedras e quebraram parte do estádio Beira-Rio para protestar contra a má fase da equipe gaúcha. Sobrou até para parte da imprensa, que foi atingida por objetos que pareciam vir de toda parte. Após essa confusão, o Ministério Público decretou uma medida cautelar para identificar as pessoas que participaram do confronto, para que sejam impedidos de frequentar estádios enquanto esperam julgamento.

No dia seguinte a essa ocasião, ocorreu um episódio brutal e que teve uma proporção ainda maior: no clássico carioca entre Vasco x Flamengo, parte da “torcida” vascaína, após a derrota para o rival rubro-negro por 1 a 0, iniciou uma batalha contra policiais, jornalistas, jogadores e outros torcedores que não tinham nada a ver com toda aquela situação. Muitos subiram nas proteções que separam as arquibancadas do campo e ficaram atrás do túnel por onde os jogadores do Flamengo sairiam. Muito tempo depois do fim da partida, os atletas rubro-negros precisaram de ajuda para conseguirem sair do gramado. Do lado de fora do estádio, a confusão continuou. Várias pessoas retomaram a briga e entraram em confronto com a polícia. O Vasco foi punido com seis jogos fora do São Januário, sendo que o primeiro já foi cumprido contra o Santos, no último domingo, no Estádio Nilton Santos.

É por essas e outras que o medo ainda me domina quando se trata de ir a jogos do time que torço. Ano passado, torcidas organizadas de Fortaleza e Ceará foram proibidas de entrar nos jogos de ambas as equipes. Mas o que esse tipo de punição tem de efetivo? Existem tantas outras formas de burlar essa proibição, que isso não vai tornar nada mais ou menos seguro. É realmente necessário que as autoridades responsáveis tomem as providências cabíveis o mais rápido possível, pois a torcida, os times e, acima de tudo, o espetáculo do futebol não podem ficar manchados por atitudes deploráveis de uma parte de pessoas que se autointitulam torcedoras, mas que de torcedoras não têm nada. Até que ponto a rivalidade e a cobrança podem chegar?

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