Dinheiro traz felicidade?

Atualizado: Jul 26

Em um mundo tão consumista, o capital tornou-se algo indispensável não só à sobrevivência, mas também à satisfação dos mais diversos desejos. Por ser algo tão intrínseco na sociedade, é claro que tal lógica também adentrou o mundo do esporte e, especialmente, o futebol, que se tornou uma máquina de fazer dinheiro ao mesmo tempo em que pode ostentar o título de esporte mais democrático e acessível de todos. A frase acima já é uma velha conhecida de todo mundo e tem suas boas razões para isso, especialmente no esporte bretão.

As cifras que rolam pelos bastidores do futebol hoje se tornaram motivo de ostentação também para os torcedores. Afinal, é motivo de orgulho torcer para um clube cuja gestão é limpa, lucrativa, livre de dívidas e escândalos, o que permite um bom retorno financeiro. Este possibilita, por sua vez, um investimento muito maior no time – jogadores talentosos e com nome no mercado, profissionais preparados para auxiliá-los e comandá-los – e, teoricamente, tem como resultado o sucesso dentro de campo. Porém, nem sempre o poder aquisitivo se torna suficiente para alcançar esse objetivo. Os clubes com as melhores gestões financeiras atualmente no Brasil provam que as conquistas vão além de um elenco valioso ou uma infraestrutura de ouro.

O Flamengo, antes reconhecido por suas dívidas exorbitantes, viveu um verdadeiro milagre econômico nos últimos anos sob comando do presidente Eduardo Bandeira de Mello. O clube saiu do limbo para se tornar uma potência, reduziu a sua dívida em mais de 300 milhões de reais e aumentou seu faturamento em aproximados 72%, faturando mais de R$469 milhões em 2016. Números próximos ao do rival interestadual, Palmeiras. Em 2016, o alviverde foi o clube brasileiro que mais arrecadou, terminando o ano com a bagatela de R$469 milhões. Com o suporte do presidente Paulo Nobre, a renda do Allianz Parque e da principal investidora, a Crefisa, reduziu as dívidas no último ano à R$282 milhões e pôde desfrutar do “título” de time mais rico do país. Por fim, o Atlético Mineiro tem vivido uma situação um pouco diferente dos demais, mas ainda sim pôde bater de frente com ambos, sendo considerado, no início do ano, um dos favoritos ao título nacional. O clube sob o comando de Daniel Nepomuceno, tem sobrevivido em uma gangorra: apesar de dever muito (fechou 2016 com uma dívida de R$615 milhões), tem se equilibrado com as cotas de transmissão e empréstimos bancários, e em uma garantia futura caso a conta estoure, que é o shopping Diamond Mall. Assim, o Galo consegue se manter vivo e investir pesado no seu futebol, contratando e pagando altos salários.

Entretanto, nas quatro linhas, a história para esses três foi completamente diferente. O Flamengo, com um elenco galáctico e uma administração impecável, até agora só pôde comemorar um título estadual conquistado neste ano. De lá para cá, sofreu com a eliminação precoce na Copa Libertadores e, aos trancos e barrancos, acabou adiando para 2018 o sonho de mais um título nacional. Mais por sorte que por competência daqueles à frente do time, tem na Sul-Americana e na Copa do Brasil uma segunda chance de salvar o ano de 2017. Já o Palmeiras e o Atlético Mineiro não deram tanta sorte. Mesmo com tanto investimento, ambos foram eliminados da Libertadores, a única competição que havia lhes restado, já que o Campeonato Brasileiro se tornou um sonho distante. Por ironia do destino, o Porco foi eliminado por um time com situação financeira oposta à sua; o Barcelona de Guayaquil tem apenas 10% da renda do alviverde e sofre com salários cortados e dívidas exorbitantes. Já o Galo caiu diante do Jorge Wilstermann, com um elenco 18 vezes mais barato que o seu. Mas diferente dos adversários ricos, os dois estão nas quartas de final do torneio.

E se toda essa “brincadeira do destino” não foi capaz de provar que só dinheiro não basta no futebol, tem mais. Os sobreviventes no mata-mata da maior competição continental da América têm vivido situações opostas aos times eliminados no âmbito econômico, mas também têm vivido um bom ano dentro das quatro linhas. O Grêmio contou com um recorde de faturamento em 2016, mas o dinheiro não foi suficiente para estancar as dívidas, das quais R$150 milhões precisam ser sanadas para ontem. Santos, sob comando de Modesto Roma Jr., tem sofrido para equilibrar as contas. O clube gasta muito mais do que arrecada e não conta com a mesma riqueza de patrocínios que outros rivais contam, dificultando ainda mais a arrecadação e, para piorar, tem uma dívida de curto prazo de R$114 milhões. Por fim, para sobreviver, o Botafogo teve que apertar o cinto. Rebaixado em 2014, campeão da Série B em 2015 e, surpreendentemente, o 5º no último Brasileiro, o alvinegro que, há três anos, devia mais de R$795 milhões, pôde contar com o trabalho de Carlos Eduardo Pereira para aliviar tamanha dificuldade ao longo das últimas temporadas. Com acordos e seu modesto faturamento, o Glorioso reduziu parte de suas dívidas e tem controlado seus gastos, mas ainda tem R$172 milhões em dívidas só para este ano.

As dificuldades financeiras, porém, não impediram os três de irem muito mais longe dentro de campo. O Grêmio é atualmente o vice-líder do Brasileirão e, apesar de ser difícil alcançar o líder Corinthians, se mantém em uma posição confortável. Santos se equilibra como consegue em 3º no Brasileirão e o Botafogo aparece apenas em 8º, mas ambos podem contar com a classificação na Libertadores e uma chance real de título, fruto de muito esforço e um futebol cheio de raça que têm apresentado, o suficiente para superar seus problemas econômicos. O dinheiro pode, sem dúvida alguma, facilitar as coisas, e finanças em dia são fundamentais para a sobrevivência do clube à longo prazo. Mas no futebol, ele dificilmente vai ser um atalho. No fim, tudo sempre vai se resolver com a bola no pé.

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