Oi repórter

Atualizado: Jul 26

Desde que decidi largar a carreira de professora meu sonho era ser repórter. Lembro do dia que contei para minha avó que iria estudar Jornalismo, ela olhou pra mim, abriu um sorriso e falou: “Que linda, não vejo a hora de te ver de salto alto, no Jornal Nacional”. Com toda delicadeza que tenho respondi de imediato, “que mané salto alto e Jornal Nacional, eu quero ficar tênis atrás do gol”.

Bom, como mulher que gosta de futebol sempre lidei com o preconceito, nunca de forma escancarada, sempre aquele jeito discreto de ignorarem minha opinião ou não chamarem pra roda de conversa. Mas sabe, a gente aprende a lidar com essas coisas. O que não falta na timeline de nós, mulheres são reportagens, comentários e posts sobre machismo e preconceito. Perdi as contas de quantas vezes li matérias de jornalistas relatando as ofensas gritadas das arquibancadas. E eu pensava como iria lidar com isso, será que eu teria estomago ou serenidade para aguentar?

Enfim, comecei a trabalhar na Rádio Coringão, uma webrádio segmentada, ou seja, só cobre o Sport Club Corinthians Paulista, comecei com o futsal, “tranquilo” de trabalhar, um ambiente bem mais acessível que o futebol de campo. Uma parte do meu sonho sendo realizada, mas ainda tinha/ tenho muita coisa pra conquistar e realizar. Neste ano, a oportunidade de reportar o futebol profissional chegou, e junto a realização do meu principal sonho: ficar atrás do gol, falando de futebol, no rádio.

Agarrei com unhas e dentes, e fui, com medo, mas fui. Meu jogo de estreia, Corinthians x São Bento na Arena Corinthians. O estômago parecia um borboletário, ansiedade a mil por hora, junto com todo o nervosismo e o medo. Fiz toda a “lição de casa”, tinha as escalações, informações, tudo certinho e preparada pra começar. A equipe da transmissão me deixou tranquila o que ajudou bastante. Mas ainda tinha tensão e insegurança: a de entrar no gramado.


Foi nessa hora que respirei fundo, antes de passar pela parte inferior do setor sul do estádio (local de onde sai os jornalistas) o medo dominou. Na minha cabeça, “Meu Deus e se eu for xingada. Não posso responder, tenho que mostrar que sou tão capaz quanto qualquer um que está aqui do meu lado”. Peguei meu microfone e fui, caminhando do setor sul para o norte, preparando o coração para ser hostilizada.

Enfim cheguei no local dos jornalistas de rádio, o jogo começou e tudo tranquilo. Mas ainda assim preparada para ignorar algum babaca falando babaquices. Decidi encarar o que tivesse que ser, então tirei uns dos fones do ouvido e fui caminhando para a saída dos jogadores, evitando olhar a torcida na arquibancada e toda aquela galera pendurada no vidro que tantas vezes também me pendurei.

E foi ai que aconteceu, levantei a cabeça para olhar o telão e ver quanto tempo ainda tinha de jogo, e sim, um torcedor gritou comigo da arquibancada: - OI REPÓRTER! Essas foram as duas palavras que saíram da boca de uma garotinha, de rabo de cavalo e camisa preto e branco, que deve ter seus nove anos de idade. Eu sorri e falei, oi.

Me preparei durante anos para ser hostilizada por ser mulher e por ocupar um ambiente tão masculino como ainda é o futebol, e naquele momento meu “escudo jornalístico caiu’’, ali mesmo atrás do gol, derrubado por uma garotinha que fez eu me sentir em casa e ainda mais confiante no meu trabalho e na minha paixão.

Claro que um dia vou estar no estádio do adversário, claro que nem sempre vai ter um garotinha, e sim, alguém achando que o diz tem sentido. Vou sim, continuar me preparando para ouvir de tudo, mas deixarei meu coração aberto somente para o que for bom, sem deixar que minha paixão ser sufocada por pensamentos tão retrógrados.

Aquelas duas palavras ainda vão ecoar muito na minha cabeça, e espero lembrar dele quando o que eu ouvir for completamente diferente. Pra quem tem esse sonho o que eu digo é: não desista, continue em frente. Não é fácil, mesmo com todo o amor, não é fácil. Mas vale a pena.

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