Do sonho à realidade: diferenças do futebol no Distrito Federal

Atualizado: Jul 25

As diferentes realidades de jovens na corrida do futebol

O grande sonho de ser jogador de futebol faz parte da vida de muitos meninos e, normalmente, o primeiro passo começa nas escolinhas de base. O esporte considerado paixão nacional é para muitos a oportunidade de melhorar de vida. Mas longe da realidade dos grandes clubes, o futebol de base enfrenta problemas de orçamento. Os times pequenos costumam disputar campeonatos apenas no primeiro semestre do ano e os contratos com os jogadores são temporários. Esta é a realidade de muitos times no Distrito Federal.

Não é comum que os times do DF sejam protagonistas no futebol brasileiro. Todavia, muitos jovens buscam entrar no mercado futebolístico por eles. É o caso de Victor Cruz, Felipe Rocha e Felipe Sanches. Três garotos que têm o mesmo sonho de jogar no futebol profissional. Mas que apesar de morarem na mesma cidade, [Distrito Federal], vivem realidades bem distintas.

A educação é a primeira barreira que os separa. De acordo com a Federação Brasiliense de Futebol, o histórico escolar é solicitado no registro do atleta, mas não é obrigatório a comprovação de continuação nos estudos a cada semestre. Muitos jovens atletas abandonam a sala de aula. Entre Victor Cruz, Felipe Rocha e Felipe Sanches, apenas Sanches chegou ao ensino superior, Cruz e Rocha não terminaram o ensino fundamental.

A VIDA E O SONHO

Felipe Sanches teve oportunidade de experimentar outros esportes como vôlei e basquete, antes do futebol. Começou a frequentar a escolinha do Clube de Saúde ainda na infância. Hoje, é meio campo júnior do Clube de Saúde. Estudava no Sigma e passou no vestibular da UnB para Engenharia Elétrica com 17 anos, mas a prioridade sempre foi o futebol. Na universidade, optou por fazer poucas disciplinas para ter tempo de treinar e se dedicar ao esporte.

“Eu pude escolher minhas matérias, meus horários, eu consegui me adequar com o futebol e comecei a treinar em dois períodos. No intervalo do futebol e as aulas eu também trabalho. Tenho uma empresa”, afirma Felipe Sanches.

Felipe Rocha começou a jogar futebol com os amigos na rua. Na infância não frequentou as escolinhas, a mãe sempre trabalhou durante todo o dia e não tinha condições de leva – lo. Hoje é meio campo juvenil na Sociedade Esportiva do Gama. Rocha não conseguiu terminar o ensino fundamental e concilia o trabalho com o futebol.

“Estudar é muito ruim, eu estudei em uma escola muito longe, não tinha dinheiro todo dia para pagar a passagem”, justificou Felipe Rocha.

Para Victor Cruz o sonho é ainda mais difícil de ser alcançado. Não possui família em Brasília, os irmãos e o pai moram no interior do Rio de Janeiro e a mãe morreu, vítima de câncer cerebral. O pai envia auxílio financeiro para o filho quando pode. Victor Cruz também não entrou para o ensino superior; assim como Felipe Rocha não chegou a concluir o ensino fundamental. Ele sempre trabalhou, treina pela manhã e trabalha no período da tarde até de noite. Isso o afastou da sala de aula. Victor Cruz hoje é atacante juvenil do Brasília Futebol Clube.

“Antes eu trabalhava e não tinha como estudar, fiquei trabalhando, trabalhando. Quando voltei a treinar, treinava pela parte da manhã e trabalhava até mais tarde”, explicou o atleta Victor Cruz.

ESTRUTURA DOS CLUBES

Existem duas formas para entrar nas categorias de base de um time de futebol. O atleta pode participar das chamadas “peneiras”, período de observação em que se analisa um grande número de candidatos, ou ser indicado por observadores das equipes. Victor Cruz e Felipe Sanches entraram no futebol por meio das indicações.

As peneiras sempre acontecem no Distrito Federal, o material de treinamento é por conta do clube e a participação, geralmente, é gratuita. A partir disso, começam a seleção dos jogadores. Os treinadores dos clubes são ex- jogadores profissionais. A experiência conquistada faz com que os atletas ouçam mais os conselhos para construir a carreira no futebol.

O Brasília e o Clube da Saúde possuem academia, campos para treinamentos, alojamentos para atletas de fora e apoio médico. O Clube de Saúde já chegou ofertar suplemento alimentar e os jogadores podem desfrutar de piscina olímpica e sauna. No Gama a estrutura é mais precária, nenhum apoio é oferecido pelo clube. Felipe Rocha joga no Gama, já Felipe Sanches frequenta o Clube da Saúde e Victor Cruz o Brasília.

Os jogos em Brasília, não costumam ter a presença de socorro. A maioria dos jogos ocorrem sem ambulância e estrutura de emergência. Quando algum atleta machuca durante a partida, o socorro acontece no improviso com ajuda das pessoas presentes.

“É ruim, se acontece alguma coisa grave a responsabilidade vai para o clube, a federação e os profissionais. Isso é um dos problemas do futebol de Brasília”, conta Humberto Nascimento, coordenador técnico do Clube de Saúde.

AS PERSPECTIVAS

Hoje existem dois tipos de contratos dentro dos clubes de futebol, o amador e o profissional. O amador é o registro que permite o atleta disputar nas categorias de base, também garante ao clube uma compensação financeira e transações futuras, são as chamadas “direito de formador do atleta”.

A partir dos 16 anos já é permitida a assinatura de contratos profissionais, de acordo com a consolidação das leis do trabalho, a CLT, e da lei Pelé, que regulamenta a profissão. Manter a estrutura do clube e os contratos assinados, custa uma despesa elevada para os times. A venda de jogadores e o patrocínio de empresas costumam garantir o fechamento das contas.

Encontrar empresas parceiras e patrocinadores também é uma dificuldade para o futebol brasiliense. Muitos empresários não enxergam prestígio na modalidade no Distrito Federal. A federação oferece ajuda aos clubes com material, mas ainda assim a realidade é longe da estrutura que os grandes times conseguem manter.

As categorias infantil e juvenil para atletas entre 13 e 17 anos têm competições regionais durante todo o calendário do DF. Já as competições para a categoria júnior, entre 18 e 20 anos, se encerram no final de julho com o campeonato Brasiliense Juniores. Depois das competições, grande parte dos jogares juniores são dispensados, com exceção da equipe campeã e a vice- campeã do campeonato brasiliense que são classificadas para a Copa São Paulo de Futebol Júnior, o mais importante torneio de base no Brasil.

A medida que a idade dos atletas avança o processo de seleção para se tornar um atleta profissional de futebol, passa ser cada vez mais rigoroso. Victor Cruz, Felipe Sanches e Felipe Rocha pretendem seguir carreira no Futebol Brasileiro. Victor Cruz e Felipe Rocha não possuem um segundo plano para caso o futebol não dê certo. Ambos pararam de estudar e vivem para o trabalho e o futebol. Felipe Sanches não tem certeza da segunda opção caso a carreira não deslanche, mas enxerga diversas oportunidades, entre elas, terminar o curso de Engenharia, continuar com a empresa ou seguir com os negócios de família e até mesmo estudar fora.

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