Dono do apito: o árbitro brasileiro que integra o quadro internacional de Futebol de 7

Atualizado: Jan 17

Rio de Janeiro, 2016, Paralimpíadas. Igor Monteiro preparou-se para atuar como árbitro assistente na partida Ucrânia x Irlanda sem saber que naquele jogo entraria para a história. Ele pensou no caminho percorrido para chegar até ali, juntou seus equipamentos e pisou em campo para se tornar o primeiro árbitro com paralisia cerebral a atuar em uma partida de futebol de 7 - modalidade paralímpica para jogadores com paralisia cerebral.

Igor nasceu com hemiparesia braquio-crural esquerda congênita, um tipo de paralisia cerebral que afeta partes do lado esquerdo do corpo. Por conta disso, a grandeza de participar de uma competição internacional somou-se a importância de atuar na equipe de arbitragem em partidas com atletas que, assim como ele, possuem paralisia cerebral. Igor revela que tem uma sensibilidade mais apurada para certas questões, como saber o momento em que é imprescindível paralisar o jogo diante da queda de jogadores ou do calor excessivo. Da mesma forma, ele consegue perceber com mais clareza certos lances. “Às vezes a bola toca no braço que a pessoa tem afetado pela deficiência e aí eu tenho condição de ter a percepção mais clara se o gesto foi intencional ou não”,explica.

Pontapé inicial da carreira

Quem vê Igor Monteiro correndo pelos campos de futebol do país e do mundo com um apito em mãos, sequer imagina que a motivação para ingressar na arbitragem veio da paixão por jogar no futebol e futsal amador. “Eu quis me tornar árbitro para poder continuar participando da Copa Bahamas, que é uma paixão desde garoto”, conta.

Até se formar no Ensino Médio, Igor atuou como goleiro em equipes que disputavam a Copa Prefeitura Bahamas na modalidade futsal durante a adolescência. A competição, que acontece anualmente em Juiz de Fora, reúne times de futebol e também futsal amador de diversas categorias, desde as de base até a sênior. “É mais difícil encontrar equipes que realizam treinos regularmente na categoria sub-20 do que nas categorias anteriores, então eu pensei que a arbitragem era uma forma de continuar participando do torneio”, conta o árbitro.

Em 2009, enquanto cursava o primeiro período de Educação Física, surgiu a oportunidade de fazer o curso de arbitragem na Liga Juizforana de Futsal. “Eu não sou de desperdiçar oportunidades”, enfatiza Igor. Apesar de acreditar que não reunia as habilidades necessárias para ser árbitro, ele insistiu na carreira; argumentando para si mesmo que ninguém está totalmente pronto. Enquanto viu outros colegas que fizeram o curso largarem a arbitragem após algumas partidas, Igor focou suas forças em um só objetivo: aprimorar suas habilidades. Para isso, apitou partidas da sua querida Copa Prefeitura Bahamas de Futsal, outros jogos de futebol de salão pela cidade e, também, atuou como bandeirinha em algumas partidas de futebol de campo nas categorias de base.

O Futebol de 7, no entanto, só entrou na vida de Igor em 2012. Durante uma aula do curso de licenciatura, o professor Álvaro Quelhas - árbitro que integrou o quadro da Fifa entre 2000 e 2004 e que também atuou na modalidade - comentou sobre a possibilidade de atuação no campeonato brasileiro de Futebol de 7. “Foi aí que eu conheci a modalidade, e foi muito legal encontrar pessoas que tem algumas dificuldades e algumas potencialidades parecidas com a sua”. No ano seguinte, Igor atuou no Campeonato Nacional de Futebol de 7 pela primeira vez - feito que se repetiu em 2015 e em 2017.

Experiência em competições internacionais

“Não tem como descrever a sensação, foi incrível”. Assim Igor define a sua participação nas Paralimpíadas do Rio, em 2016. Com exceção das quatro partidas em que esteve dentro de campo atuando como árbitro assistente, Igor acompanhou nas arquibancadas todos os jogos de Futebol de 7 do torneio. Ao lembrar das experiências vivenciadas durante os dias de competição, o árbitro ainda se emociona.

Ele confessa que, às vezes, se pega pensando se tudo o que viveu foi real. “Nosso jogo passou no Sportv 2, ao vivo. Quando eu poderia imaginar que um jogo em que eu estava participando seria televisionado?”, relata Igor ao se referir à partida entre Ucrânia e Irlanda. Ele conta que seus pais, irmão e primos foram ao estádio assistir a uma das partidas e lembra que ouviu seu nome ser gritado em um estádio com nove mil pessoas, forma escolhida pelos brasileiros para homenagear o trio de arbitragem do país. “O árbitro, uma figura tão invisibilizada e criticada no campo, ter seu nome gritado? É muito especial!”.

Depois das Paralimpíadas, Igor foi convidado para integrar o quadro internacional da modalidade e, desde então, participou de mais duas competições internacionais: o Parapan-americano de jovens, realizado em São Paulo, no ano de 2017, na qual atuou pela primeira vez em competições internacionais como árbitro central - foi o dono do apito; e a Copa do Mundo de Futebol de 7 SUB-19, realizada este ano na Espanha - a primeira competição da carreira em solo estrangeiro. No Mundial, Igor fez fez história mais uma vez: apitou a primeira partida internacional de mulheres com paralisia cerebral realizada.

Igor é, atualmente, o único brasileiro que faz parte do quadro internacional de árbitros na modalidade e, este ano, tornou-se o representante dos árbitros das Américas nas reuniões do comitê de arbitragem da Federação. Para 2019, Igor tem mais alguns pedidos: a atuação no Parapan-Americano e na categoria adulta da Copa do Mundo.

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