Futebol e política não se discutem, mas se conversam

Atualizado: 26 de Jul de 2020

Dizem por aí que futebol e política são assuntos completamente diferentes e que não se discutem, mas quando olhamos com atenção para o histórico desse assunto percebemos que sim, futebol e política sempre se misturaram.

Anos de Copa do Mundo são momentos perfeitos para futebol e política se cruzarem. O resultado do maior campeonato de futebol do mundo pode determinar a trajetória administrativa de um país. Em 1970, por exemplo, o Brasil foi tricampeão da disputa sob a liderança da opressiva ditadura militar e o presidente vigente, general Médici, se utilizava da figura da seleção para promover o seu governo. Tanto que a contratação de Zagallo para o comando do time se deu porque o técnico anterior, João Saldanha se negou a convocar Dadá Maravilha, desejo do então governante. Inclusive a famosa música “noventa milhões em ação” também surgiu nesse contexto e o grande ídolo Pelé até chegou a ser usado como garoto propaganda de uma campanha educacional promovida pelos militares.

Seleções de outros países também sentiram a influência da política dentro das quatro linhas durante Copas do Mundo. Dizem que em 1934, Mussolini, líder fascista da Itália, manipulou os resultados da disputa por ser visto diversas vezes conversando com árbitros antes das partidas oficiais. Durante o hino alemão na Copa do Mundo da França de 1938, a imagem de toda seleção germano-austríaca fazendo a saudação nazista estampou as páginas dos jornais e chocou o mundo.

Contra esses regimes ditatoriais de governo, algumas figuras importantes do futebol manifestaram-se e mobilizaram-se. No Brasil, com certeza, os nomes de Socrátes e da Democracia Corinthiana foram fundamentais na luta pela retomada da democracia. O jogador do Corinthians era um intelectual e patriota que junto com os outros atletas, entre eles Casagrande, militou num movimento pela liberdade e redemocratização brasileira. Além de muito discutir dentro do próprio clube, era frequentador ferrenho dos comícios e protestos que pediam “Diretas Já” para escolher um novo presidente. Assim como o Doutor e João Saldanha (aquele mesmo que foi despedido do comando da seleção de 70), Reinaldo, camisa 9 da equipe canarinho da Copa de 1978, num jogo contra a Suécia, marcou o gol de empate e, levantou o punho serrado ao comemorar e afrontar à ditadura, como muitas vezes fez o ativista e jogador do Corinthians.

Ao longo da história, outros jogadores no mundo também tocaram no ponto delicado que é a política e o futebol. Nos anos 50, Ferenc Puskas jogou os amistosos pelo Honved, afrontando o regime comunista húngaro e sendo punido com seu afastamento de jogos oficiais por quase um ano. Afonsinho, ex-atleta do Bahia e Flamengo, admitiu que durante a ditadura de Médici foi monitorado por órgãos do governo pelas reivindicações em prol dos atletas. Na mesma época, em 1974, o jogador Carlos Caszely se recusou a cumprimentar o presidente Pinochet, após o mesmo ter assumido o poder por meio de um golpe. Mais ultimamente, os suíços Xakha e Shaqiri, no jogo frente à Sérvia, pela Copa do Mundo, manifestaram-se contra a manutenção de Kosovo. E o jogador do Liverpool e um dos melhores do mundo, Mohamed Salah, mantém uma postura contrária aos interesses politiqueiros de dirigentes do futebol egípcio.

Atualmente, ainda observamos algumas manifestações de apoio de alguns atletas e clubes à determinados candidatos. Felipe Melo, após marcar o gol de empate contra o Bahia em partida válida pelo Brasileirão, dedicou o mesmo ao candidato a presidência Jair Bolsonaro e gerou muita polêmica sobre esse episódio. Assim como aconteceu no ano passado, véspera de eleições, quando o time do Atlético Paranaense entrou em campo vestindo camisetas que apoiavam o mesmo político. Os dois atos geraram discussões e debates dentro e fora dos estádios, principalmente nas redes sociais, onde alguns torcedores apoiaram as manifestações do jogador e clube e outros os encararam como oportunistas. Por outro lado, Marcelo Cirino e o zagueiro Paulo André, ambos do Atlético Paranaense, aderiram à campanha #EleNão, que repudia o candidato do PSL, e assinaram um manifesto a favor da democracia. Acirrando a discussão sobre a interação entre futebol e política.

Fora dos gramados, alguns boleiros também se aventuram na carreira política. O mais famoso dentre eles, sem dúvida é o Romário, que assumiu a cadeira de senador pelo Rio de Janeiro e obteve sucesso na carreira pública, onde é presidente do Diretório Estadual do Podemos. Inclusive, nessa eleição o baixinho disputou o governo do estado carioca. No mesmo partido, Bebeto, ídolo da seleção brasileira, foi por duas vezes deputado estadual também pelo Rio de Janeiro. O atual PMDBista Roberto Dinamite, ex-jogador e dirigente do Vasco, é político há longa data e já desempenhou cargos de vereador e deputado estadual no mesmo estado de Romário e Bebeto. Desde 2010, Marcelinho Carioca engajou-se na política e só em 2013, pelo Partido dos Trabalhadores (PT), o ídolo do Corinthians conquistou a posição de vereador da capital paulista. Nas eleições deste ano foi candidato a deputado estadual em São Paulo pelo PRB. O mais novo político do momento é Ronaldinho Gaúcho, que recentemente filiou-se ao Partido Republicano Brasileiro (PRB) ao lado de seu irmão, Roberto Assis, e deve disputar as próximas eleições.

Enfim, diante desse cenário é notório que o futebol e a política caminham ombro a ombro. Eles não precisam ser discutidos, mas devem ser conversados, afinal, a sua relação importante, tensa e peculiar persiste na história.

0 comentário

Receba as novidades

do Futebol Por Elas

  • Facebook - Black Circle
  • Twitter - Black Circle
  • YouTube - Black Circle
  • Instagram - Black Circle