Vasco da Gama: um gigante contra o racismo

Atualizado: há 6 dias

Em pleno século XXI ainda é comum acontecer atos de racismo no futebol, mas o preconceito racial era comum no sistema predominante no início das duas primeiras décadas do século XX. Em um ato histórico, o Vasco da Gama foi o primeiro clube a se posicionar e ir contra o sistema predominantemente branco. O clube já se diferenciava pelo fato de que para ser aceito no elenco era necessário apenas saber jogar bola. Assim, sem ter qualquer restrição de classe ou cor, formou um time heterogêneo.


O time até então pequeno e sem nome, foi crescendo e mostrando que talvez, saber jogar bola, fosse realmente a questão mais importante. Prova disso, foi a vitória do campeonato Carioca de 1923 com o time que ficou conhecido como os “Os camisas negras” quando estreou na série A da Liga Metropolitana de Desportos Terrestres.


Todo esse sucesso do “clube do povo” acabou gerando um descontentamento: incomodava ver negros, mulatos e operários em posições de destaque. Então, os grandes e aristocratas clubes da época decidiram sair da atual liga em que participavam, Liga Metropolitana de Desportos Terrestres (LMDT) e criar uma nova, a AMEA (Associação Metropolitana de Esportes Atléticos).

Formada inicialmente por Flamengo, Fluminense, Botafogo, América e Bangu, foram impostas regras para a participação do Vasco. Foi exigido que afastasse 12 dos seus jogadores por atuarem em profissões duvidosas e que arrumasse um campo em boas condições para sediar os seus jogos. Essas eram apenas desculpas para esconder o verdadeiro motivo: racismo. Em um ato de ousadia, o presidente do clube enviou uma carta ao presidente da competição, desistindo de participar da competição. Esse episódio que ficou conhecido como ‘’resposta histórica’’ e é considerado por algumas pessoas a Lei Áurea do futebol.


Quanto à condição de eliminarmos doze (12) dos nossos jogadores das nossas equipes, resolve por unanimidade a diretoria do Club de Regatas Vasco da Gama não a dever aceitar, por não se conformar com o processo por que foi feita a investigação das posições sociais desses nossos consócios, investigações levadas a um tribunal onde não tiveram nem representação nem defesa. Estamos certos que V.Exa. será o primeiro a reconhecer que seria um ato pouco digno da nossa parte sacrificar ao desejo de filiar-se à AMEA alguns dos que lutaram para que tivéssemos entre outras vitórias a do campeonato de futebol da cidade do Rio de Janeiro de 1923” - dizia parte da carta.

O clube se manteve na Liga Metropolitana e foi campeão invicto do campeonato de 1924. Mesmo com essa importante resposta dada dentro de campo, a que se deu do lado de fora foi ainda mais simbólica: a construção de um estádio. São Januário, assim chamado por estar localizado na rua de mesmo nome, foi erguido com doações dos seus torcedores. A “Campanha dos 10.000” foi a principal maneira de arrecadação, nela o clube tinha como meta conquistar essa marca de sócios, mas acabou ultrapassando esse número e conseguiu dar início a construção do estádio.

Com o seu próprio campo, o Vasco ingressou na AMEA para disputar o campeonato de 1925, ficando em terceiro lugar da competição. Porém, mais importante que a posição no campeonato, o mais importante foi feito: uma resposta ao sistema ariano da época. O Vasco com a “resposta histórica” e com a construção de São Januário, enfrentou o preconceito racial dentro do futebol, contribuindo para a sua democratização. Talvez, se não fosse por esse ato de coragem, não teria-se visto Pelé e tantos outros craques negros brilharem.


A história do clube é motivo de orgulho dos torcedores vascaínos e com razão. De tijolo em tijolo, foi construído um gigante além das quatro linhas. O clube da Colina provou sua grandeza e mostrou que nunca foi e nunca será só futebol.

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