Nando: para não esquecer jamais

Atualizado: Jul 25

O dia 31 de março marcou os 55 anos do Golpe Civil-Militar de 1964. O futebol, assim como outros meios culturais e de influência sobre as massas, não deixou de ser preocupação para os militares que se reversaram no poder durante 21 anos. A história de Nando, primeiro jogador anistiado do Brasil, divide espaço com as muitas outras histórias de pessoas que tiveram suas vidas abaladas pela ditadura que se instaurou no país. Foi nas páginas do livro "Futebol e Ditadura" que conheci e me emocionei com sua história e logo, a obra se tornou meu livro de cabeceira. Fernando Antunes Coimbra nasceu no Rio de Janeiro e é o irmão mais velho do maior ídolo do Flamengo, Zico. Em 1963, Nando foi aprovado no concurso para professor do Plano Nacional de Alfabetização, porém, com o golpe de 64 o projeto foi encerrado e a partir daí, ele se tornou um dos alvos dos militares.

Jogando pelo Santos de Vitória e pelo Madureira sentiu pela primeira vez a perseguição política que viria a enfrentar nos anos seguintes, quando foi dispensado sem maiores explicações das duas equipes. Em 1968, chegou ao Ceará e foi defendendo as cores do alvinegro que apresentou seu melhor futebol, atraindo a atenção do Belenenses, de Portugal, que ofereceu uma oferta que o Ceará não poderia cobrir. "Não fui perturbado nessa rápida passagem pelo Ceará pelos algozes da democracia. Ao contrário, fui muito feliz e vivi em paz (...) Como fui burro. Larguei o paraíso que era a capital do Ceará e fui para terras distantes". Portugal também vivia um período ditatorial, sob o comando de Salazar. Ainda em negociações contratuais, Nando recebeu a visita e foi interrogado no hotel por dois policiais da PIDE - Polícia Internacional e de Defesa do Estado e sob ameaças, decidiu voltar para o Brasil. Com receio de influenciar a carreira do irmão, que já era promessa no futebol, se afastou dos gramados.

​​Em 1970, sua prima Cecília, foi presa no Doi-Codi do Rio de Janeiro. Dias depois, Nando também foi levado e define o que passou como "noite de horror", ali ouviu que todos do Plano Nacional de Alfabetização seriam presos. Foi liberado, após incessantes pedidos dos seus irmãos, Antunes e Edu, mas fichado como subversivo. Nando tentou um retorno ao futebol, mas depois de tanto tempo parado, sofreu diversas lesões. Além disso, as marcas psicológicas de um passado onde não existia liberdade também interferiram em sua continuidade no futebol.

Nando não era um militante, não pegou em armas, não participou de guerrilhas. Era professor e jogador de futebol. Foi taxado como subversivo e precisou procurar outros caminhos fora do esporte. Nando, também, preferiu se abster para poupar a carreira do irmão. A história dele, assim como de tantos outros que foram vítimas de um período autoritário, é para não esquecer jamais. Para que não se repita jamais.

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