As (ainda) pequenas garras do futebol feminino


A polêmica entre o abismo salarial de jogadores e jogadoras é uma discussão não tão antiga, mas já discutida. Em 2018, Marta e Neymar protagonizaram o debate, desta vez os protagonistas são Ada Hegerberg e Messi.

Convenhamos que nós mulheres começamos nesta vida de esporte a pouco tempo, não necessariamente porque não queríamos e sim porque nos proibiam. O futebol é quase uma cultura intrínseca ao brasileiro, mesmo quem não gosta, de quatro em quatro anos, veste a amarelinha e se arrisca a dar palpites sobre o jogo.

A grande questão começa lá trás, não estou falando de idade média, porque nesta época nem alma nós tínhamos. Estou falando de quando a lei nos proibia de entrar em campo. Em 14 de abril de 1941, Getúlio Vargas outorgou o decreto-lei 3.199 que impedia as mulheres de qualquer “prática de desportos incompatíveis com as condições de sua natureza”.

Quando nos cabia somente procriar, não podíamos correr o risco de “perder nossa função natural” e com isso fomos banidas de vários esportes. A lista incluía o futebol de campo, de salão e de praia. O fim deste decreto foi somente em 1979, mas a regularização veio quatro anos depois quando se possibilitou criar regras e ligas femininas de futebol.

Você deve estar se perguntando o que isso tem a ver com a discrepância dos salários. Veja bem, tem tudo a ver! Durante mais de 40 anos mulheres eram proibidas por lei de jogar bola, isso não as impedia de bater uma bolinha, mas era caso de polícia. A sociedade, incluindo homens e mulheres, não se acostumou a ver 22 mulheres em campo.

Esta lacuna de 40 anos fez que com que todos os amantes de futebol se acostumassem com o jogo rápido, de muita força e intensidade do futebol masculino. E como as mulheres não têm a mesma capacidade física de rendimento do homem, jogam no tempo delas, no máximo delas, mas isso não significa que tenham menos capacidade técnica.

As mulheres não são incentivadas a ver ou jogar futebol. Geralmente é dom ou vontade e a falta de acreditar e investimento para lapidar as possíveis pérolas do futebol feminino podem fazer com que não sejam exploradas ao máximo. Talvez as mesmas medidas de campo ou tempo do futebol masculino exijam demais fisicamente do corpo feminino, por que não modificar isso? No vôlei foi muito bem aceito, a rede feminina é mais baixa que a masculina e nem por isso o jogo fica “mais chato”.

O mercado futebolístico cresceu, existiu e existe por causa dos homens. O futebol nada mais é que um grande comércio mundial e nós sabemos como ele funciona: vende-se mais o que se compra mais. Messi e Neymar ganham salários astronômicos porque são os melhores do mundo? Sim, mas ganham mais ainda pela sua imagem. E são poucos que chegam neste ápice do futebol, segundo relatório da CBF, 96% dos atletas brasileiros ganham menos de R$ 5 mil reais por mês.

Nós sabemos que existe uma paralisação muito maior de torcedores em frente às TVs ou em fila de estádios quando é jogo masculino e o mercado visa lucro, por isso existe muito mais visibilidade e dinheiro correndo. O futebol feminino ainda não tem grande relevância mercadológica, apesar de alguns sinais estarem indicando que isso pode e deve ser modificado. Neste ano, em março, o jogo feminino entre Barcelona e Atlético de Madrid bateu recorde de público levando mais de 60 mil torcedores para as arquibancadas.

O futebol masculino demorou anos para se tornar um dos mercados mais rentáveis do mundo, foi um processo longo, gradativo e orgânico. O futebol feminino tem o amparo das redes sociais para acelerar o seu processo e se pararmos para pensar a sua história é curta para o tanto que já caminhou.

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