Repetir até ser compreendido: a culpa não é da vítima

Atualizado: há 6 dias

Na mesma semana em que a jogadora Marta foi anunciada como embaixadora da ONU, e durante o mesmo torneio que apresentou ao mundo imagens históricas, como a presença das torcedoras iranianas – que ainda são proibidas de frequentar os estádios no país de origem – nas partidas, a Copa do Mundo chegou ao fim com uma declaração, no mínimo, infeliz por parte do maior órgão de gestão do futebol.

De acordo com a ONG Fare Network, parceira da Federação Internacional de Futebol (Fifa), foram detectados 45 casos de assédio a mulheres na Rússia, envolvendo torcedoras e jornalistas. Ainda segundo a entidade, o número pode ser bem maior, em virtude de possíveis casos que não foram denunciados. No entanto, mais problemático até que o número de agressões, que, infelizmente, não podem ser considerados como uma surpresa, é a forma como a Fifa decidiu “resolver” a questão.

Para reduzir os incidentes, a entidade solicitou às emissoras de televisão que reduzam a transmissão de imagens de “torcedoras atraentes”. No entanto, a inconveniente medida só reforça a ideia de que a vítima é a culpada pelo assédio, já que com a exposição da “beleza” nas telas, o desrespeito e a misoginia poderiam ser validados, ou, no mínimo, justificados. Além disso, com a opinião, a Fifa reitera que o futebol não seria local adequado para as mulheres, reforçando o preconceito contra o qual torcedoras e jornalistas precisam lutar diariamente, para ter o simples direito de torcer ou trabalhar sem serem importunadas. Luta, essa, que torna as mulheres transgressoras, pela simples – ou não tão simples assim – decisão de assumir a paixão pelo esporte.

Segundo Federico Addiechi, chefe do departamento de responsabilidade social da Fifa, a medida foi tomada porque os casos de assédio superaram os de racismo. Como seria, então, se essa medida fosse adotada para, supostamente, reduzir os casos de preconceito racial? Exigir a não exibição de negros, pardos, ou de qualquer etnia que seja considerada minoritária nas transmissões nem de longe seria uma alternativa viável e concreta para o fim do racismo. No caso do assédio ao público feminino, a medida também não deve ser naturalizada.

Com a exigência adotada, a Fifa dá a entender que, literalmente, não quer que os casos cheguem aos seus olhos – o que não significa um sinônimo do fim do problema. É necessário que a entidade compreenda a gravidade da questão e apresente uma punição adequada. Para que não venha a ocorrer assédio, crimes sexuais ou machismo, deve-se pregar o respeito e não a ocultação ou “camuflagem” das vítimas.

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