Walter Casagrande: nos gramados, na boêmia e na militância política

Atualizado: 25 de Jul de 2020

Walter Casagrande Júnior nasceu no dia 15 de abril de 1963, na cidade de São Paulo. Revelação do Corinthians, o atacante viveu o momento mais marcante de sua carreira em 1982-84, no qual ao lado de jogadores como Sócrates e Wladimir constituíram um dos mais conhecidos movimentos contra a ditadura militar: a democracia corinthiana. Embalados pelo lema "ganhar ou perder, mas sempre com democracia", qualquer decisão referente a equipe paulista era votada por todos os membros do clube - jogadores, comissão técnica, dirigentes - , sendo os votos de pesos iguais independente de seus cargos. Em um contexto de repressão, a autogestão corinthiana e a exibição nas camisas de frases como "eu quero votar pra presidente" foram vistas com afrontas ao sistema vigente, a visibilidade que esses jogadores de futebol tinham foram impulsionadores na redemocratização do país.

Em entrevista a Mariana Godoy, Casão (como é popularmente conhecido) desabafou sobre a decepção com a atual geração de jogadores apáticas com os problemas políticos do país: “é muito difícil pra mim, que fiz parte dessa classe, olhar tudo isso e não tem um. Não é que são poucos, não há ninguém que se preocupa com nada, com a situação política e social do país, com a corrupção no governo, com a corrupção na CBF".

Dependente químico, Casagrande chegou a ser preso por porte de maconha. Nesse momento, os laços de amizade com Sócrates foram importantes para superar as dificuldades na carreira e na vida. A droga é um dos demônios ao qual enfrenta todos os dias. Em 1984, foi emprestado ao São Paulo por conta de sua vida boêmia que não estava agradando, porém um ano depois retornou ao Corinthians, o seu time do coração.

Integrou a seleção de Telê Santana, na Copa do Mundo de 1986. Um ano depois, jogando pelo Porto de Portugal conquistou a Copa dos Campeões da UEFA. Na Itália, jogou pelo Ascoli e pelo Torino, nesse segundo viveu uma fase de estabilidade financeira e sucesso nos gramados, sendo campeão da Copa Itália e vice-campeão da Copa da UEFA.

Em 1993, retornou aos solos brasileiros vestindo a camisa do Flamengo, sendo extremamente decisivo em clássicos. Um dos jogos mais emblemáticos de sua carreira foi contra o Corinthians, o qual no lugar de vaias foi recebido com gritos de "Volta, Casão, teu lugar é no Timão". Atendeu aos clamores da torcida e logo se arrependeu, por considerar que essa decisão foi decisiva para o fim de sua carreira como jogador profissional. Ainda assim, chegou a marca de 103 gols com a camisa alvinegra. Finalizou sua carreira passando pelo Paulista de Jundiaí e pelo São Francisco.

Depois da aposentadoria, Casagrande tornou-se comentarista esportivo, sendo um dos principais comentaristas da rede Globo de televisão. Internado algumas vezes por problemas de saúde e dependência química, Casagrande é autor de dois livros juntamente com o jornalista Gilvan Ribeiro intitulados "Casagrande e Seus Demônios" e "Sócrates e Casagrande - Uma História de Amor".

Dos gramados, da televisão, da boêmia, da política: Casagrande nunca se omitiu. Em tempos sombrios, nunca se rendeu a tabus, falou de homofobia, de política, de corrupção, de postura dentro e fora das quatro linhas. Em um ambiente muitas vezes velado e silenciado por patrocinadores que precisam vender jogadores-produtos, Casão sempre soube a importância que um jogador profissional exerce dentro do país do futebol e sendo assim, se expôs abertamente com tudo de si: com sua vida, seu talento, suas opiniões e seus demônios.

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