Por que demoramos tanto tempo para chegar onde estamos?


Em 1950 foi realizado o jogo entre Portuguesa de Desportos e São Paulo, a primeira reportagem esportiva filmada. Embora a primeira transmissão já houvera acontecido em 1938 por meio do rádio, o conteúdo audiovisual foi um marco. Quando o jornalismo esportivo estava, de fato, consolidando-se como uma especialização não era bem aceito, pois as pessoas acreditavam que qualquer um que tivesse pleno conhecimento sobre determinado esporte estaria apto para ser jornalista.

A editoria de esportes é detentora de um grande público, principalmente no futebol que é o carro chefe em nosso país. É impossível falar da luta profissional sem mencionar a luta social que corroborou para a liberdade feminina dentro de uma sociedade arcaica. Por milhares de anos a mulher foi vista como um ser que servia para duas coisas: reproduzir, cuidar dos filhos e da casa. Graças aos movimentos sociais, principalmente os que eclodiram no século vinte, as mulheres começaram se mostrar para o mundo, as principais reivindicações eram igualdade política, jurídica e econômica.

O século XIX levou a divisão das tarefas e a segregação sexual dos

espaços ao seu ponto mais alto. Seu racionalismo procurou definir

estritamente o lugar de cada um. Lugar das mulheres: A Maternidade

e a Casa cercam-na por inteiro. (PERROT, 1988: 186)

O papel delas ficou tão moldado ao longo de anos que quando uma mulher assume a postura de figura autônoma as outras têm uma espécie de preconceito inconsciente gerado pelo contexto histórico, até hoje. E se não queriam a mulher fora da cozinha, quem dirá dentro de um estádio cobrindo futebol. Maior parte das equipes de jornalismo esportivo sempre foi composta por homens, e nada mudou. Maria Helena Nogueira Rangel iniciou sua carreira por volta de 1947 no jornal Gazeta Esportiva – formou-se em educação física e é considerada a primeira jornalista esportiva do Brasil. Teve uma carreira breve de apenas cinco anos na profissão, além de diversas matérias publicadas, fez a cobertura de campeonatos e viagens internacionais. Foi o começo de uma era. Helena foi a pioneira de tantas outras que viriam depois. Quem também deu os primeiros passos femininos no esporte foi Isabela Scalabrini que cobriu os jogos olímpicos de Los Angeles, em 1984. Uma mulher fazendo reportagem sobre outras mulheres sendo campeãs no esporte. Se por um lado era bom por outro nem tanto, Scalabrini foi impedida de cobrir eventos futebolísticos por ser considerado um esporte masculino.

Era quase impossível ver mulheres no esporte até o início dos anos 70.

A coisa mudou. Não que hoje as redações esportivas tenham o mesmo

número de mulheres com relação ao contingente masculino. [...]

Normal não é que haja preconceito. Homens e mulheres devem ter os

mesmos direitos. Têm. Os mesmos níveis salariais, o que

incrivelmente se verifica nas redações, ao contrário das demais

profissões. Devem ter as mesmas oportunidades. O que não se pratica

em boa parte das editorias do país. Menos ainda nas de esportes.

(COELHO, 2003:34)

O ingresso feminino na mídia está num crescente desde os últimos dez anos. Cada vez mais nos é dado espaços, que há pouco tempo atrás era ocupado apenas por homens. Em minhas experiências trabalhando com esporte, nem é preciso se esforçar tanto para perceber, ainda somos a minoria, é bem comum hoje em dia vermos mais repórteres e apresentadoras. Porém, é raro ver mulheres comentaristas nos jogos de futebol. Porque as pessoas ainda acreditam que um homem tem uma melhor analise e leitura de jogo que a mulher, porque não confiam de fato no nosso trabalho.

Quando ingressei no curso de jornalismo me perguntavam em qual área queria atuar. Quando respondia as pessoas faziam um semblante de surpresa, mesmo com tantos tabus quebrados ainda é motivo de espanto para muita gente. McLuhan afirma que: “o meio é a mensagem”, e se esse meio usa apenas figuras masculinas para transmitir determinada mensagem você acaba estereotipando a coisa. Quando uma jornalista aparece na televisão esteja ela reportando ou apresentando, em algum lugar sempre haverá uma mulher sentindo-se representada por ela. Quando isso não acontece as pessoas tendem a associar que aquele espaço pertence apenas a um gênero. O meio pelo qual a mensagem é passada diz tanto quando a própria mensagem.

A realidade é que já chegamos lá, pedimos apenas confiança e respeito para trabalhar. Comparando com os anos oitenta conseguimos um avanço significativo, mas não vamos parar por aqui. Até as escolhas serem feitas tendo como base a igualdade estaremos caminhando. Levando sempre a bandeira da equidade. Não superioridade, apenas equidade. A nossa luta é para que se torne corriqueira a nossa participação em todas as funções do jornalismo esportivo, raro não é, e nem comum. Nossa geração é a transição e acredito que cada dia um pequeno-grande avanço.

#MariaHelenaNogueiraRangel #GazetaEsportiva #IsabelaScalabrini

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