A pioneira: Simoni Guedes e o seu legado para a pesquisa sobre futebol no Brasil

Atualizado: Jan 17

Recebi na quinta-feira (18), em choque, a notícia de que o mundo perdeu a mente brilhante da antropóloga Simoni Lahud Guedes. Para quem pesquisa ou deseja pesquisar sobre futebol no campo das ciências sociais, eu não preciso explicar quem é e qual é a importância de Simoni. À todos que acham que o futebol merece – e deve - ser estudado, o momento é de lembrar os trabalhos de Simoni.

A pesquisadora abriu os caminhos para os estudos sobre futebol ao apresentar, em 1977, sua dissertação de Mestrado, cujo tema era “O Futebol Brasileiro – Instituição Zero”, na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). No livro “Universo do Futebol: esporte e sociedade brasileira”, considerado o marco para os estudos sobre o esporte no país, a pioneira Simoni assina o artigo “Subúrbio: celeiro de craques” - resultado de um estudo etnográfico com operários em uma fábrica no Rio de Janeiro.

Ela ministrava aulas no Departamento de Antropologia e do Programa de Pós-Graduação em Antropologia e Ciência Política da Universidade Federal Fluminense (UFF) e era inspiração para diversos pesquisadores. Não dá para resumir o trabalho acadêmico de Simoni em algumas linhas, ou dimensionar a sua importância para os estudos sobre futebol na área das ciências sociais.


Tive o prazer de ouvir Simoni no “Seminário Copa América 2019”, realizado pelo LEME. Na ocasião, Simoni me encantou pela simpatia e pelas ideias. Falou sobre identidade nacional e sobre o “sequestro” da camisa verde e amarela. Ela também brincou sobre o seu time – o Flamengo – e lamentou a situação política do Brasil. Eu saí de lá e li o máximo de artigos que consegui escritos por ela. Eu saí de lá querendo ser pelo menos 1/3 da pesquisadora que ela era.

Em entrevista para o Ludopédio, em 2013, Simoni falou sobre suas pesquisas, seu trabalho e desafios. “O que foi mais desafiador em termos de gênero, com o futebol, não foi o trabalho de campo. São as palestras. Vou só te dar um exemplo. Uma vez eu fui convidada pra dar uma palestra, num negócio, não me lembro mais direito o que era, mas sei que era em Curitiba. Aí eu estou na porta e tinha uma programação pendurada, eu parei para olhar, para ver para onde eu teria que ir. Aí chegou um casalzinho jovem, um rapaz e uma moça, e disse 'Ah, uma palestra de futebol com uma mulher?! O que será que ela entende disso?'. Isso foi muito engraçado, porque eles não sabiam que era eu”, disse na entrevista.

A pesquisadora também contou que fazia questão de deixar claro que espaço de debate acadêmico não é mesa redonda – era lugar para falar de antropologia, e não de futebol. Simoni, ainda vamos falar muito sobre antropologia e sobre futebol por aqui. A história segue sendo escrita. As pesquisas não vão parar, por mais que esteja cada vez mais difícil optar por pesquisar neste país. O seu legado, pode ter certeza, está presente nas estantes e mentes por aí.

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