Dulce Rosalina: a primeira mulher a assumir a presidência de uma torcida organizada

Atualizado: Jul 25

Se hoje o público feminino ocupa seu espaço de direito nos estádios brasileiros, torce com liberdade e recebe o merecido respeito nas arquibancadas, é porque grandes mulheres, como Dulce Rosalina, lutaram no passado por essa equidade e visibilidade

Aos 22 anos, Dulce Rosalina, foi à primeira mulher a assumir a presidência de uma torcida organizada no Brasil. Apesar da pouca idade, a vascaína apaixonada emponderou-se e revolucionou a maneira de torcer nos estádios cariocas. Demonstrando o poder feminino no esporte.

Como acontece com a maioria dos torcedores fanáticos, antes mesmo da carioca nascer, a Cruz Maltina já fazia morada no seu peito e as cores do alvinegro vibravam forte em seu coração. Tanto que aos precoces dois anos de idade Dulce Rosalina já era sócia torcedora do Gigante da Colina. O pai, português naturalizado brasileiro, influenciou a então menina a torcer e acompanhar o Vasco da Gama, bem como, a batalhar por igualdade e tolerância racial nos estádios do Rio de Janeiro.

O laço afetivo entre Dulce e o time alvinegro se estreitou definitivamente quando o então presidente do clube, Raul Campos, caminhou de encontro aos ideais de luta da sua família, anunciando a permanência de diversos jogadores negros no elenco vascaíno frente à elitização do clube. Desde então, a torcedora passou a frequentar assiduamente as arquibancadas de São Januário, externalizando a sua adoração.

Em 1956, a devoção à equipe Cruzmaltina e a presença assídua aos jogos do time vascaíno levaram Dulce Rosalina a assumir a presidência da Torcida Organizada do Vasco. Feito inédito no Brasil, onde até então, apenas homens ocupavam tal cargo. Tanto que inovou ao introduzir a bateria nas arquibancadas dos estádios cariocas, incluir papel picado durante os jogos e realizar concursos dentro da TOV. Ações que a tornaram bastante famosa no meio futebolístico.

A dedicação da primeira dama do Vasco era tamanha, que a mesma decidiu encerrar suas atividades no seu emprego paralelo para se aplicar exclusivamente ao clube e a sua torcida. Com isso, em torno de 1960, por meio de um concurso desenvolvido pela conceituada Revista do Esporte, Dulce Rosalina recebeu o título de melhor torcedor do Brasil, e como forma de retribuição, doou o prêmio ao clube de São Januário.

Contudo, essa perseguição frenética ao time alvinegro quase colocou a vida de Dulce em prova. Em 1968, durante uma caravana a São Paulo, o ônibus em que estava sofreu um grave acidente. Nenhuma morte fatal, mas a presidente da TOV obteve um afundamento do crânio e uma clavícula quebrada. E você aí pensa que a primeira dama ficou de repouso?! Que nada! Poucos dias depois do incidente já estava no Maracanã ostentando a Cruz de Malta no peito. Desse episódio, vale ressaltar também, que Dulce não quis passar por cirurgia alguma, alegando que as cicatrizes do acidente simbolizavam sua fiel devoção ao Gigante da Colina.

Dulce Rosalina casou-se com o então jogador Ponce León, com quem teve seus dois filhos. E era amiga íntima de alguns atletas, como Vavá e Bellini, que frequentavam festividades na casa do casal.

Certa vez, acompanhada de seu filho Poncinho, a torcedora símbolo foi barrada na entrada do Maracanã ao tentar entrar com papel piado no estádio. Revoltada com a situação, Dulce chamou um dos policiais de flamenguista, sendo presa logo em seguida. Cientes do ocorrido do lado de fora, os jogadores da equipe do Vasco, próximos do início da partida, se recusaram a entrar em campo, exigindo a soltura da primeira dama. E assim foi feito! Minutos de depois, como um amuleto, Dulce estava posicionada na arquibancada para incentivar o time de coração.

Devido divergências políticas, em 1977, Dulce Rosalina foi obrigada a desvincular-se da TOV, já que apoiava à candidatura de Medrado Dias à presidência do Vasco. Fundando, logo em seguida, a Renovascão, que ocupava o lado oposto da antiga organizada nas arquibancadas de São Januário.

Com o avanço da idade, a presença de Dulce Rosalina nas arquibancadas se tornou menos constante, mas não menos apaixonada. Nos anos 90 ficou afastada dos estádios por problemas de visão, não podendo mais frequentar jogos noturnos. E assim, logo no início de janeiro de 2004, o falecimento da querida torcedora do Vasco da Gama comoveu a nação Cruzmaltina.

Apesar da tristeza, o legado de Dulce Rosalina é eternizado até hoje, seja em forma de homenagens ou inspirando outras torcedoras a seguirem seus passos. A antiga Rua do Reservatório, próxima ao estádio São Januário, por exemplo, foi renomeada pela prefeitura carioca para Rua Dulce Rosalina. Recentemente, o clube alvinegro também disponibilizou aos torcedores organizados o Programa Dulce Rosalina, em referência a torcedora símbolo, facilitando a aquisição de ingressos e acesso aos jogos do Gigante da Colina.

Além do merecido reconhecimento entre os vascaínos, a torcedora ícone também deixou uma valiosa herança para sociedade. Dulce Rosalina nasceu em 7 de março de 1934, um dia antes da celebração do Dia Internacional da Mulher. E com certeza, essa coincidência não foi à toa. A torcedora foi pioneira na ocupação do espaço das mulheres nas arquibancadas dos estádios brasileiros, na posse de importantes cargos dentro de torcidas organizadas e foi voz contra o machismo e intolerâncias no futebol. E segue viva e inspiradora fortalecendo a constante batalha que o público feminino enfrenta dentro do esporte no país. Dulce Rosalina batalhou por um futebol mais justo e igualitário e seu patrimônio segue pulsante no coração de cada torcedora que, assim como ela, deseja vestir o manto do seu clube com entrega, orgulho e paixão. E principalmente, com respeito, dignidade e segurança.

Viva Dulce Rosalina! Viva as mulheres no futebol!

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