• Taísi Sorrini

As histórias das mães orgulhosas e das filhas que representam o Brasil

Atualizado: Mai 10

“Ela nunca deu crédito para as bonecas”, relatou Nailza Demoner, 55 anos, ao recordar a preferência da filha, Gabriela Zanotti, pela bola em vez do tradicional brinquedo “das meninas” na infância. Assim como a jogadora do Corinthians, outras atletas também tiveram o despertar para o futebol de maneira parecida, segundo suas mães. Geyse Ferreira (Benfica/Portugal) e Raquel Fernandes (Sporting Club Huelva/Espanha) começaram a ensaiar seus primeiros chutes ainda na infância, entre amigos, nas ruas de seus bairros em Maragogi (AL) e Ibirité (MG), respectivamente.


O interesse precoce pela modalidade, fez com que Geyse e Raquel, no início de suas carreiras, dividissem as quatro linhas com meninos; já que não havia time exclusivo de mulheres nas proximidades. Para Maria Cristina Gomes da Silva, 45 anos, ver a filha numa equipe mista nunca incomodou. Segundo ela, os meninos apreciavam Geyse no time devido à sua notável habilidade.


Maria Francisca da Silva, 61 anos, relembra do pontapé inicial para a próspera trajetória da filha no futebol. Foi no campinho improvisado em São Paulo que o treinador focado em crianças carentes descobriu Ludmila da Silva. Convidada a fazer parte do time da garotada, a mãe, inicialmente, relutou antes de autorizar a menina a frequentar os treinos. Hoje, Ludmila é parte do elenco campeão do Atlético de Madrid (Espanha) e nome confirmado na disputa da seleção brasileira na Copa do Mundo em junho próximo.



Dona Nailza sabe bem o que é isso. A mãe de Gabriela Zanotti lembra que ficava enlouquecida com bate-bola pela casa, sentindo-se forçada a colocar a menina numa escolinha de futebol. Mas a filha, muito ativa, fazia com a mãe também participasse das atividades e campeonatos. Isso mesmo: Dona Nailza na zaga e Gabi no ataque.


Mas uma hora a brincadeira de criança acaba e o papel de jogadora profissional tem que ser assumido. Chega então a responsabilidade e junto as dificuldades e expectativas.


A princípio, a mãe, que exerce a profissão de gari, não acreditou na escolha da filha. Demorou um pouco para entender, mas quando viu que Geyse “levava jeito para bola” e que o esporte lhe completava, dona Maria Cristina, além de fã se tornou a maior impulsionadora. Hoje, aquela pequena garota se tornou a gigante jogadora que retribuí todo apoio da mãe, sendo uma das revelações da seleção brasileira e destaque na equipe do Benfica (Portugal).


Escolher ser mulher-atleta de futebol no Brasil é desafiador frente à baixa visibilidade, salários desiguais em relação à categoria masculina e o enfrentamento dos mais diversos preconceitos. Esse cenário de espaço restritivo do futebol feminino no país expõe as esportistas a diversas dificuldades, intolerâncias e frustrações. Apesar de tudo, as mães entrevistadas sempre incentivaram as decisões, investiram nos sonhos e fortaleceram a caminhada das filhas em busca da profissionalização na modalidade.


Dentre todos os inconvenientes do futebol feminino brasileiro, Antônia Fernandes da Silva, 57 anos, matriarca de Raquel Fernandes, pontua que o salário desigual em relação à categoria masculina é o entrave mais complicado que encaram, razão pela qual não consegue morar junto da filha. Mas assinala que a distância não a impede de torcer e vibrar pela pupila.



“Essa dificuldade que a mulher tem no futebol é a dificuldade que a mulher encontra em quase todas as profissões” afirma categoricamente Dona Maria Francisca. Além da desigualdade salarial; a falta de oportunidades, incentivo e divulgação também ofuscam a modalidade no país. Segundo a aposentada, muitas meninas precisam conciliar o sonho de serem jogadoras com outras atividades profissionais para assim se sustentarem.


“Enquanto um homem na mesma categoria da Ludmila já tem uma casa boa, um bom carro, ela ainda não conseguiu comprar a casa própria na Espanha e pouco consegue ajudar a família no Brasil com o salário que ganha.”

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