Santos: revés do futebol feminino

Atualizado: Jul 25

Na última quarta-feira (4), a equipe do Santos foi eliminada no Campeonato Brasileiro de Futebol Feminino pela Ferroviária. Após vencer o jogo de ida por 2 a 1, a equipe santista começou vencendo no Ulrico Mursa, mas acabou sofrendo a virada. O jogo foi para as penalidades, onde as Sereias foram derrotadas. Após o término do jogo, ainda no vestiário, a treinadora Emily Lima pediu demissão. A treinadora que assumiu o comando alvinegro no ano passado fez 79 jogos dos quais venceu 59, empatou 12 e perdeu apenas oito. A treinadora foi campeã Paulista e vice-campeã na Libertadores no ano de 2018.

As relações com o time feminino do Santos já não vinham bem, diretoria e comissão técnica já não falavam o mesmo idioma. Muitos conflitos culminaram para a decisão de Emily.

O Santos foi uma das poucas instituições que deu vez ao futebol feminino. As famosas Sereias da Vila começaram em 1997, e tiveram entre seus principais títulos o bicampeonato da Libertadores da América em 2009 e 2010, e em 2011 conquistaram o Torneio Internacional Interclubes. Todavia, o Santos não pensou duas vezes, e essas conquistas também não foram motivos suficientes para impedir o encerramento das atividades na modalidade em meados de 2011. A decisão gerou polêmica, e trouxe à tona as prioridades que o clube tinha na época. Ou seja, querendo ou não a diretoria passada (do até então presidente Luís Álvaro de Oliveira Ribeiro) errou com o time feminino.

Em março de 2015, a modalidade voltou aos planos do Santos e está até hoje, entretanto ainda não recebe a atenção que merece. A temporada de 2019 do time alvinegro estava estonteante e tinha tudo para ser um grande ano. O time funcionava nas mãos de Emily e com a chegada da artilheira Sole James. Gols era o que não faltava. As Sereias da Vila não só atendiam como também superavam as expectativas. Inclusive, a não convocação de alguns nomes santistas para a Copa do Mundo na França pelo técnico Vadão levantou discussões sobre o porquê do time que apresentava o melhor futebol no Brasil não ter sido lembrado em nenhum momento.

Não se sabe ao certo onde as coisas começaram a dar errado, mas a insatisfação de Emily com as condições de trabalho e a falta de apoio da diretoria não eram de hoje. Um episódio polêmico que causou ainda mais discórdia aconteceu em julho desse ano, quando a treinadora expôs a situação em que as meninas alvinegras foram submetidas ao precisarem passar parte da noite no saguão de um hotel em Manaus. Vale ressaltar que a crítica foi voltada a CBF e a empresa que estava responsável pela hospedagem do time, porém o presidente santista José Carlos Peres em entrevista ao quadro “Café com o presidente” no canal oficial do Santos no Youtube criticou a atitude da treinadora: “A nossa técnica acabou fazendo gravações, colocando nas redes, fazendo a sua reclamação e isso tem de ser tratado de forma pontual dentro da direção e não extrapolar pra mídia e causar toda essa polêmica!”. Ainda na mesma entrevista, o presidente rebateu o fato de a treinadora reclamar dos gramados em péssimas condições em que as Sereias mandavam seus jogos.

Abrindo um parêntese nos comentários feitos pelo presidente é necessário pontuar duas coisas:

1º o presidente errou ao criticar os vídeos divulgados por Emily? Sim. A instituição precisa cuidar de suas atletas com a mesma atenção e cuidado que cuida da “equipe principal”. Esse episódio poderia ter acontecido com qualquer outra equipe tendo que o futebol feminino ainda não recebe os mesmos cuidados que o masculino. E por ter acontecido com uma equipe da grandeza do Santos era esperado que o presidente em seu papel buscasse levar a público a insatisfação com a falta de respeito tida com as profissionais do clube.

2º O estádio em que as Sereias da Vila mandam seus jogos, o Ulrico Mursa, realmente não é dos melhores. E quando ressalto isso, não culpo a Portuguesa Santista. O mínimo que se espera é que o clube ofereça não só um bom lugar para a realização dos jogos, mas também um local decente para os treinamentos. Ficou claro no último jogo (um jogo valendo vaga numa final de campeonato brasileiro) que as condições do gramado não atendem nem de longe as expectativas. E naquele mesmo dia já havia tido outro jogo e acrescentando ao mal tempo, as condições só pioraram. Ano passado, quase todos os jogos da Sereias como mandantes foram realizados na Vila. Por que não jogar mais lá? O masculino é prioridade? Entendo a preocupação com o gramado, mas onde fica a preocupação com as jogadoras?

Uma coisa ou outra sozinha não justificam a eliminação. Mas se juntarmos tudo teremos um grande conflito em mãos e é justamente ai que se encontra o problema. No ano em que a Copa do Mundo de Futebol Feminino ganhou tanta visibilidade, é inaceitável que alguns problemas ainda insistam em acontecer. O Santos é uma grande equipe, não há dúvidas disso. Mas de nada vale ter um time de futebol feminino só por ter, de nada vale bater no peito e dizer dos títulos que já foram conquistados se não der assistência quando necessário, de nada vale dizer como é importante, se amanhã ou depois quando as contas apertarem optarem mais uma vez pelo hiato da modalidade. É preciso ser gigante não só no masculino, mas também no feminino. Porque no final das contas, todos são profissionais, tudo é futebol e todos são Santos!

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