Juntas somos mais fortes

Atualizado: Jan 17

É notória a presença cada vez mais constante do público feminino nas arquibancadas dos estádios brasileiros. Além de torcerem e incentivarem seus times de coração, elas também transmitem a importante mensagem de luta, resistência e desconstrução dos velhos padrões desse ambiente predominantemente masculino.

Coletivos, movimentos e torcidas organizadas exclusivamente de mulheres ajudam a fortalecer o emponderamento e são fundamentais no combate ao machismo, assédios e intolerâncias no futebol.

Desde o século XX há relatos de mulheres presentes em jogos de futebol, principalmente na cidade de São Paulo, onde historicamente a modalidade teve seu ponta pé inicial no Brasil. Nessa época, o esporte se restringia à elite da sociedade, por isso as espectadoras eram, em sua maioria, senhoras e senhoritas ricas e elegantes, que assistiam comportadas a atuação de seus familiares e namorados.

Passadas algumas décadas, o futebol perdeu essa hierarquia e ganhou uma roupagem mais popular. E as mulheres, por livre e espontânea vontade, se expuseram longe do ambiente domiciliar e iniciaram a ocupação de espaços públicos. Dulce Rosalina do Vasco, por exemplo, foi uma das precursoras do movimento de fortalecimento da presença feminina no ambiente futebolístico. Em 1960, ela recebeu o título de melhor torcedora do Brasil e foi à primeira mulher a comandar uma torcida organizada.

Inspiradas e encorajas por mulheres como Dulce Rosalina, torcedoras brasileiras buscam insistentemente legitimar a presença do público feminino nas arquibancadas dos estádios do país. Com isso, diversos movimentos, coletivos feministas e torcidas organizadas compostas exclusivamente por mulheres surgiram para emancipação do gênero no meio esportivo.

Esses agrupamentos não visam somente à criação de uma identidade feminina num meio majoritariamente masculino, mas também a desconstrução de padrões arcaicos, preconceituosos e difamatórios, como a desvinculação dos estereótipos que as mulheres são “embelezadoras de estádios”, “marias-chuteiras”, “sapatonas” e “torcedoras modinhas”. A batalha é efetivamente contra esse obstáculo de reconhecimento da “mulher que torce”, aquela que gosta, acompanha, discute, que é capaz de interessar-se pela modalidade e entender os aspectos técnicos e táticos das partidas de futebol.

E justamente por essa falta de aceitação e resistência masculina em abrir mão desse reduto de dominação, muito frequentemente há relatos de machismo, hostilidades e assédios sofridos pelo público feminino no ambiente do futebol. Principalmente pelo fato do respeito ainda estar ligado à figura do homem e não a feminina. Uma mulher que vai ao estádio puramente para torcer pelo seu time e exercer o seu direito ainda não impõe respeito.

Mas ações crescentes e efetivas dos grupos feministas por equidade nas arquibancadas tendem a tornar o ambiente dos estádios cada vez mais agregador e democrático para as mulheres. Coibindo injúrias, perseguições e difamações dentro e foras dos campos, e até mesmo buscando melhores condições nas arenas para receber esse tipo de público.

Em 2009, pela procura por companhia para frequentar os jogos do Internacional de Porto Alegre, nasceu a Força Feminina Colorada, a primeira torcida organizada formada exclusivamente por mulheres registrada no Rio Grande do Sul. Além de incentivarem o clube colorado dentro de campo, nas arquibancadas promovem o protagonismo da mulher, onde estendem faixas, flamulam bandeiras e tocam instrumentos, algo que possivelmente não seria permitido em uma torcida também composta por homens.

Assim como elas, outras torcidas unicamente femininas também estão engajadas na temática das mulheres, estádios e futebol por todo país, como: Camisa 12 (Vasco da Gama – RJ), Dragões da Real (São Paulo Futebol Clube – SP), Força Feminina (Ceará – CE), Galoucura Feminina (Atlético Mineiro – MG), Gatas da Fiel (Paysandu – Pará), Jovem Fla Pelotão Feminino (Flamengo – RJ) e Mulherada Problema (Club Athletico Paranaense – PR).

Além de almejarem representatividade nas torcidas, esses grupos de mulheres também estimulam o diálogo e as discussões sobre a situação das torcedoras nesse ambiente ainda opressor. O Movimento Coralinas, coletivo feminista vinculado ao Santa Cruz – PE , surgiu em 2016 justamente com esse objetivo. Bem como debatem assuntos importantes para as frequentadoras do Arruda, também encabeçam campanhas de combate ao machismo e por melhores condições das arenas para receberem as mulheres. Na mesma linha, o Movimento Toda Poderosa Corinthiana preza pela inclusão das torcedoras alvi-negras nos programas de sócio torcedor do clube e no acesso à materiais esportivos exclusivos ao público feminino. Paralelamente, também abraçam ações presenciais e online de coibição ás intolerâncias de gêneros nas arquibancadas de Itaquera.

Outro exemplo, é o VerDonnas, que surgiu logo em seguida ao caso de agressão a uma torcedora palmeirense no metro de São Paulo. Apesar de jovem, o coletivo é atuante no Allianz Parque e valoriza a união entre as palestrinas. A sororidade também juntou as apaixonadas pelo Fortaleza – CE na formação do coletivo Torcedoras do Leão. A fim de consolidar a presença feminina nas arquibancadas do Castelão, as meninas lançaram a campanha “Estádio sem Medo” que se mobiliza por um futebol mais seguro e atrativo para elas.

Em escala nacional, o Movimento Mulheres de Arquibancada é um grupo que reúne torcedoras de diferentes times do Brasil e que luta, dentro e fora dos estádios, por direitos, respeito e emponderamento feminino frente ao machismo e desigualdades no futebol. O Movimento surgiu de um grupo de Whatsapp formado por torcedoras que conversavam sobre o esporte, a situação das mulheres nas arquibancadas e os preconceitos enfrentados. E durante um bate papo de bar nasceu à ideia de promover uma grande reunião de mulheres frequentadoras de estádios para debater, compartilhar e discutir o ambiente futebol para o público feminino.

Assim, o 1° Encontro Nacional de Mulheres de Arquibancada foi realizado em junho de 2017, em São Paulo, no estádio do Pacaembú, reunindo 350 mulheres representantes de 50 torcidas, de 11 estados brasileiros. E mais recentemente, o 2° Encontro Nacional aconteceu em Fortaleza. Além das reuniões, também acontecem mobilizações nas redes sociais e nos estádios, como por exemplo, a distribuição de “machistômetros” e reivindicações contra as péssimas condições dos estádios para receberem esse público, incluindo a falta de higiene nos banheiros, o baixo contingente policial do sexo feminino e a ausência de uma ouvidoria preparada para as questões das mulheres. Em âmbito nacional, o MDA, assim chamado, tornou-se importante e fundamental na luta e suporte por representatividade, respeito e resistência com a crescente presença do público feminino nas arquibancadas do Brasil.

Diante desse cenário, a campanha #Deixaelatorcer viralizou na internet e fortaleceu ainda mais a ação de torcedoras, isoladas ou em grupos, na luta por mais respeito nos estádios brasileiros. A hashtag foi difundida pelo grupo Gurias do Grêmio após os constantes episódios de desrespeitos contra torcedoras e jornalistas esportivas em jogos do time. A visibilidade e a adesão por parte das frequentadoras das arenas foram tão grandes que outros movimentos se encorajaram e também lançaram seus manifestos. As integrantes do Galo Marx (Atlético Mineiro – MG) gritaram alto por “Estádio sem Assédio” e estenderam faixas de alerta à violência contra as mulheres e a importância de denúncia via 180. As meninas do INTERfeminista (Internacional – RS) lançaram o “Ouvi no Rádio” que repudia piadinhas machistas a respeito da presença feminina nas arenas esportivas.

Assim, a evolução das mulheres com o ambiente futebol vem acontecendo gradativamente com a presença cada vez mais constante desse público nos estádios. Coletivos, movimentos e torcedoras organizadas mobilizam-se fortemente para ocupar, exercer direitos, buscar igualdade, coibir atitudes machistas e repudiar assédios dentro das arenas.

Ações de conscientização também são comumente observadas, como faixas estendidas pedindo respeito e distribuição de cartilhas de comportamento. Inclusive, as torcedoras de diferentes times do Brasil também se reúnem periodicamente para discutir, compartilhar e dividir experiências no ambiente futebol, sem clubismo. Então, gradualmente o futebol tende a torna-se um ambiente mais receptivo a mulher, e isso depende fortemente da sororidade feminina e da conscientização dos torcedores.

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