• Bianca Lodi

O legado político da Copa do Mundo Feminina

Atualizado: Jan 17

Podemos atribuir milhões de palavras para a Copa do Mundo deste ano. Legado, vitória, luta, avanço, representatividade, e para algumas torcedoras e torcedores um ato político. Acompanhar os jogos das mulheres e da seleção deixou de ser uma ação normal para amantes do futebol feminino, para um ato político. Sendo uma busca coletiva por igualdade de gênero dentro e fora de campo.

Mulheres enfrentaram 42 anos de luta por espaço e visibilidade no futebol brasileiro. Os desafios começaram no dia 14 de abril de 1941, na Era Vargas, quando foi criada a lei 3.199, e no Art. 54. que dizia: “Às mulheres não se permitirá a prática de desportos incompatíveis com as condições de sua natureza, devendo, para este efeito, o Conselho Nacional de Desportos baixar as necessárias instruções às entidades desportivas do país”. Vistas como frágeis e responsáveis pelo lar e os filhos, as mulheres lutaram por quatro décadas para alcançar a regulamentação do futebol feminino, mas em 1983 venceram este obstáculo. A proibição, entretanto, tem reflexos negativos no esporte até hoje, como o pouco incentivo à prática e a falta de patrocínio.

Movimentos e torcedoras alegam que assistir aos jogos da Copa neste ano foi um ato político. “Engajamos outras mulheres a se posicionar em casa, no trabalho, no grupo de amigos para incentivar e motivar outras pessoas a pararem e prestarem atenção na tv naqueles dias. Ter esse posicionamento, comprar essa briga principalmente contra pessoas que viriam com o argumento de que Copa do Mundo de verdade é apenas a masculina, é um ato político. É defender o que acreditamos, é mexer nessa construção social que normatizou o futebol como um esporte acessível e capaz apenas para homens”, aponta Karina Gallon, criadora da marca-protesto Peita.

O Movimento Toda Poderosa Corinthiana (MTPC), fundado por torcedoras corintianas de todo o País, aponta que com certeza assistir os jogos da seleção feminina foi um ato político. “Principalmente em um momento onde as conquistas relativas às políticas públicas em benefício das mulheres sempre foram ameaçadas. Pois, para que uma mulher pudesse jogar futebol, foi necessário fazer política. De 1941 até 1983, todos os resultados positivos que tivemos foi graças à força de vontade e a competência individual de cada uma dessas jogadoras que continuaram a jogar mesmo que proibidas, pois, mesmo após 83, a profissionalização e o investimento no futebol feminino ainda caminham a passos curtos,” conta.

O legado político por trás dessa Copa do Mundo é justamente por todo processo histórico de segregação, política de controle legal e biológico, e estigmatização do corpo feminino enquanto frágil, incapaz e delicado que essas mulheres lutaram e enfrentaram. Seus direitos sempre foram tirados de cena por leis. A luta foi gigante para alcançar seu espaço na sociedade e no esporte. E por esse motivo a mobilização para os jogos deste ano, principalmente, também teve seu cunho político e representativo.

“A mobilização para os jogos da Seleção Feminina sempre foi diferente, esquecida. As pessoas só lembravam que o Brasil tinha um time de futebol com mulheres no período das Olimpíadas. Assistir o Mundial foi uma oportunidade de mostrar que existem várias categorias e campeonatos precisando de apoio, valorização, investimento e respeito”, relata o Movimento Toda Poderosa Corinthiana.

A situação tem evoluído. As mulheres têm que praticar esportes, precisam de poder e visibilidade. Então, agora, é sobre ocupar o espaço público também, reivindicar o lugar da mulher, incentivar as atividades, mexer o corpo. A conversa a respeito das causas e consequências dessa falta de visibilidade tende a ser circular: não existe interesse porque não está na mídia; não está na mídia por falta de investimento; falta investimento porque não existe interesse. Ou quaisquer outras permutações destes fatores. Mas o exercício de des/articulação de cada um desses pontos é vão, pois a raiz política deste problema precede futebol, mídia e investimentos. A conversa precisa começar onde o problema começa: sexismo.

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