Copa do Mundo Feminina: as contradições do Brasil para sediar a competição


a Fifa oficializou a candidatura brasileira para sediar a próxima edição da Copa do Mundo de Futebol Feminino, que ocorrerá em 2023. Além do Brasil, oito países disputam o posto de sede do torneio – África do Sul, Argentina, Austrália, Bolívia, Colômbia, Coreia (Sul e Norte, em candidatura conjunta), Japão e Nova Zelândia –, constituindo o novo recorde de inscrições.

Segundo o site oficial da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), o diretor executivo de gestão da entidade, Rogério Caboclo, afirmou que o futebol, de forma geral, é um importante elemento para a cultura e para a economia nacional, e, por isso, lançariam candidatura a todos os eventos possíveis do esporte em questão. “O futebol feminino passa por um momento de franca expansão, a CBF tem feito investimentos importantes para melhorar o calendário, as competições, as estruturas e a divulgação da modalidade. Temos que aproveitar os excelentes equipamentos espalhados pelo país e a vinda da Copa do Mundo teria um efeito muito positivo para isso”, completou Caboclo, destacando a modalidade feminina.

No entanto, para muitos profissionais da área, não há motivo para celebração. A candidatura brasileira é vista com desconfiança e como uma forma de camuflar a difícil realidade à qual grande parte das atletas do país estão sujeitas. Nem mesmo a possível visibilidade que o evento poderia trazer oferece alento ou mesmo justificativa para a tentativa de sediar a copa.

É o que pensa a jornalista e ex-jogadora paulista Pri Fiotti, que cita exemplos recentes para não acreditar na “herança” que o evento pode deixar. “De certa forma, daria uma visibilidade para o país, mas o problema é que uma copa mascara tudo. Essa candidatura é apenas um belo marketing, promoção dos próprios interesses. Que legado vai deixar? Esquecimento total das meninas, assim como aconteceu, por exemplo, em 2016, nas Olimpíadas. Quando o masculino ia mal das pernas, todo mundo resolveu ‘apoiar’ o feminino, mas logo nos esqueceram quando fomos eliminadas”, destaca.

Para Patrícia Menezes, que se apresenta como presidente-supervisora-preparadora física-auxiliar técnica-roupeira-lavadeira do Aliança, de Goiânia, chega a ser uma contradição o país lançar a candidatura enquanto, ao mesmo tempo, não fornece o mínimo de estrutura para o desenvolvimento da modalidade. “Não sou favorável porque acho que o futebol feminino aqui ainda precisa ser profissionalizado e valorizado em todas as instâncias. Precisamos ser reconhecidas pelos méritos e não por obrigação. Acho que até 2023, isso não acontecerá. Temos muitos problemas. Existem poucas federações e clubes que apoiam, de fato, o futebol feminino.”

A postura dos clubes brasileiros também é criticada pela técnica potiguar Walessa Silva. “Hoje, existem clubes ‘de camisa’ que ainda não se posicionaram falando qual projeto ou estratégia irão utilizar para que a gente possa fazer o que a Europa acabou de fazer, de colocar 60 mil pessoas em um jogo entre Atlético de Madrid e Barcelona. Os nossos estádios mal estão colocando 50 mil torcedores em jogos masculinos, imagine nos femininos. Há pouco tempo, o Sport (PE) disse que iria acabar com o futebol feminino, e, sob pressão, voltou. A CBF não fez nenhum tipo de pronunciamento. O time masculino do Sport está na segunda divisão, as meninas estão na primeira, deveriam ter mais espaço, mais atenção, mais oportunidades”.

“Temos que lutar porque a nossa modalidade ainda está muito mal representada. Ainda existem meninas que passam fome, existem meninas que estão fazendo campanha nas redes sociais para conseguir uma cirurgia porque, infelizmente, não têm apoio e segurança por parte dos clubes”, ressalta a técnica.

No entanto, Walessa é ainda mais enfática. “Eu posso dizer, com muita convicção, que o fato de a CBF colocar o nosso país à disposição para sediar a próxima Copa do Mundo não passa de uma maquiagem, uma lavagem, se não for de dinheiro, que seja cerebral, porque não tem cabimento, não dá para aceitar isso. Como que o nosso país pode sediar uma copa feminina se os próprios campeonatos nacionais não têm estrutura? Nós não temos mais uma Copa do Brasil, não temos um campeonato que faça a gente pensar que estamos preparando bem as nossas meninas. É inadmissível ver um calendário do futebol paulista muito mais evoluído, forte e avançado do que o próprio calendário da CBF”.

A preparação da seleção brasileira para a Copa que será disputada ainda este ano, na França, é mais um dos motivos que fazem a técnica Walessa Silva reprovar a posição da entidade. “O problema ainda está na CBF, não só nesse departamento pobre que temos do futebol feminino, mas em um todo. Temos o Vadão ganhando um salário altíssimo, e por que não permaneceu com a Emily Lima? Explicaram que a Emily foi demitida por resultados negativos frequentes, e o Vadão? Também são muitos resultados negativos em sequência, qual o critério para a permanência dele?”

“Quantos treinadores vamos ver na nossa modalidade suando sangue, sonhando com uma oportunidade e desistindo porque não tem perspectiva? No Brasil, não se assume uma seleção de base ou principal por competência, se assume por indicação”, destaca Walessa. Pri Fiotti completa: “Vamos passar vergonha com a seleção na França, esse ‘padrão Vadão’ não dá.”

Ainda para Pri, a Confederação Brasileira de Futebol poderia ter outras prioridades antes de buscar receber o evento. “Deveriam investir na base e na arbitragem. A quantia que gastaram no VAR daria muito bem para melhorar as condições desses setores. E sim, sou a favor do VAR, mas, primeiro, sou a favor de desenvolver o ser humano. Acho que temos que começar pelo certo, pela base de tudo, para aí, sim, sediar uma copa com dignidade.”

Vendo que tem “experiência necessária” e “confiança da Fifa” para sediar o evento, a CBF tem até o próximo dia 16 de abril para submeter o projeto à maior entidade do futebol internacional. A escolha do país sede ocorrerá em março de 2020.

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