No futebol (e no mundo) não há espaço para o preconceito


Século XXI. Um século onde muitas barreiras foram quebradas, onde a “minoria” teve maior visibilidade e muitos direitos conquistados. Um século onde a representatividade se fez presente. Todavia, ainda assim, há cenas lamentáveis que acontecem não só no Brasil, mas em várias partes do mundo. Cenas que se fortaleceram, principalmente, nas últimas semanas. Atos racistas e preconceituosos que paralisam o futebol, que mostram o pior lado do ser humano e até onde alguém é capaz de ir ao achar que em um estádio se pode tudo.

É certo que o futebol tem um grande impacto simbólico na sociedade visto que é o meio no qual mais encontramos diferenças e são elas que fazem do futebol o que ele é e representa. Tudo que acontece em meio a esse esporte é propagado no mundo inteiro com grandes olhos, tanto atos positivos quanto negativos como é o caso. Abaixo alguns exemplos que nas últimas semanas ganharam enfoque no mundo da bola e a pergunta que deixo (e que muitos fazem) é: até quando isso vai acontecer?

Slavia Praga x Barcelona – Nelson Semedo é alvo de torcedores do clube da República Tcheca

Em jogo válido pela terceira rodada da Champions League (23/10), Slavia Praga e Barcelona se enfrentavam quando na transmissão do Esporte Interativo foi relatado pelo repórter Marcelo Bechler, correspondente internacional do canal, que a torcida do clube mandante imitou sons de macaco quando Nelson Semedo, jogador do Barça, atacava.

Hallas Verona x Brescia – Mario Balotelli sofre com injúrias raciais no Campeonato Italiano

No início desse mês, quem voltou a ser alvo desses problemas foi Mario Balotelli. Na rodada do dia 3 de novembro do Campeonato Italiano, o Brescia visitou o Hallas Verona, quando em dado momento da partida a torcida começou a entoar gritos racistas para o jogador que revidou ao chutar uma bola em direção à arquibancada. Inclusive, ameaçou a deixar o campo, mas foi contido por companheiros de equipe. O árbitro da partida, Maurizio Mariani, advertiu o jogador num primeiro momento, mas ao se dar conta do que acontecia retirou a punição. Como a FIFA orienta, o sistema de som do estádio pediu para que os gritos parassem.

Shakhtar Donetsk x Dínamo de Kiev – Taison e Dentinho saem de campo chorando após torcida visitante entoar ofensas racistas

Outra situação semelhante aconteceu no domingo passado (10/11) onde os jogadores brasileiros Taison e Dentinho sofreram ofensas racistas no jogo entre Shakhtar Donetsk e Dínamo de Kiev, pelo Campeonato Ucraniano. No segundo tempo da partida, os torcedores de Kiev (visitantes) fizeram ofensas racistas a ambos os jogadores. Taison indignado mostrou o dedo médio e ainda chutou a bola para longe. Diferentemente do caso com Balotelli, o jogador foi expulso e saiu de campo chorando.

Santos x Ceará – Fabinho é alvo de gritos preconceituosos pela torcida santista

No Brasil, atos lamentáveis também acontecem. Na 26° rodada do Campeonato Brasileiro, Santos e Ceará se enfrentavam e ao término da partida o jogador cearense Rafael Galhardo relatou que o volante Fabinho havia sido vítima de injúrias raciais por parte da torcida santista presente na Vila Belmiro. O Santos, que há poucos dias havia feito uma campanha sobre o orgulho negro para lançar seu terceiro uniforme, rapidamente emitiu um alerta nas redes sociais onde pediu para que torcedores preconceituosos de qualquer naturalidade deixem de torcer pelo clube.

Cruzeiro x Atlético Mineiro – Segurança é agredido verbalmente por torcedor atleticano

No domingo passado (10/11), o segurança Fábio Coutinho foi alvo de injúria racial quando trabalhava no clássico mineiro Cruzeiro e Atlético Mineiro. O torcedor chegou a cuspir na cara de Coutinho que buscou manter a calma e continuar o seu trabalho, mas depois em entrevista ao globoesporte.com confessou ter se sentido mal e passado a noite em claro.

Esses são alguns exemplos mais recentes sobre o preconceito no mundo da bola entre muitos que acontecem. E os casos que não vemos? Que não vai parar na mídia, aquele que acontece no dia a dia e incomoda tanto quem sofre? Pense: se em um estádio cercado de pessoas e câmeras esses atos acontecem, o que essas pessoas preconceituosas são capazes de fazer quando ninguém está olhando? Quando não há uma câmera por perto?

O tema é de extrema importância e cada vez mais necessário receber cuidados para a conscientização. O que mais intriga é pensar no que pode levar uma pessoa a cometer injúria racial ou qualquer tipo de ato preconceituoso.

O que leva alguém a usar a cor da pele como sinônimo de ódio?

Não consigo encontrar resposta para essa pergunta. Como já disse e bem vimos nos exemplos acima, atitudes preconceituosas acontecem no mundo inteiro e mancham o futebol. O estádio de futebol que antes era um lugar para se levar a família e torcer pelo time do coração, está cada vez mais se tornando um espaço vergonhoso e deplorável. Isso tudo por conta de alguns torcedores (se é que podemos chamar assim) que se acham no direito de atacar o outro apenas pela cor da pele, pela orientação sexual, pela origem, pela opção política ou credos. Enfim, pela diferença.

O sociólogo Maurício Murad uma das maiores referências nacionais no estudo da violência de torcedores no futebol, em entrevista ao Goal Brasil em 2017, afirmou que: “Nas multidões, e o futebol é um evento de multidão, a possibilidade de ultrapassar limites e cometer exageros é muito grande. Porque a multidão é tocada pela paixão, pelo anonimato. As pessoas acham que estão escondidas, e que ninguém vai reconhecê-las.”

Sobretudo, como bem sabemos, os próprios clubes que se envolvem em polêmicas desse nível buscam descobrir o quanto antes o criminoso e levá-lo as autoridades competentes. Em alguns casos, a própria torcida entrega o infrator. Perceber a consciência das pessoas em alguns casos chega a nos dar uma esperança para acreditar que tempos melhores virão e que num futuro que não esteja tão distante assim, esse tipo de coisa não aconteça.

Entretanto, até lá... Quantos jogos mais precisarão ser paralisados por contas de cantos preconceituosos? Quantos jogadores ou torcedores mais sofreram por um fator que os torna diferente, mas não inferior ou superior? Quantos dias mais vamos ter de aguentar tudo isso sem fazer nada a respeito? Quando os pronunciamentos virão acompanhados de atitudes drásticas e não apenas com um aviso sonoro? Até quando teremos de “aceitar” o preconceito de terceiros como se fosse normal? Nunca foi normal e nunca será.

Que as entidades responsáveis pelo futebol em cada uma das esferas tomem atitudes mais severas em relação aos casos que insistirem em acontecer e que o futebol possa voltar a ser um lugar alegre, onde a emoção fala mais alto e que as lágrimas derramadas sejam de felicidade e não de tristeza.

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