• Paula Delgado

Marilene Dabus: a primeira mulher a cobrir o futebol no Brasil

Atualizado: Jan 16

Nós, do Futebol por Elas, buscamos cada vez mais ocupar espaço e dar voz a diversas mulheres que amam, entendem e vivem o futebol. Não é fácil, porém, já foi mais difícil. Se em 2019 ainda vivemos em uma sociedade que insiste que futebol não é coisa de mulher, imaginem na década de 1960?

Foi esse cenário que Marilene Dabus encarou quando, no final dos anos 60, escandalizou a população brasileira ao entrevistar jogadores de futebol ainda no gramado. Dizia-se que ela entrevistou os mesmos dentro do vestiário, mas Marilene desmentiu essa história em entrevista ao O São Paulo, onde disse que achou essa história engraçada e não quis desmentir à época, mas a verdade era que, no vestiário ela nunca havia feito entrevistas.

Assim como a maioria de nós, Marilene era apaixonada pelo futebol desde criança. Um dia, recebeu um convite para participar de um programa na extinta Tv Tupi. Ao chegar para sua participação, Marilene disse à produção do programa: eu quero falar sobre o Flamengo. Sua vontade de falar sobre o flamengo se tornou um sucesso entre os telespectadores do programa. Em um vídeo postado em uma rede social, Marilene diz que, inclusive, passou a ser reconhecida nas ruas como a moça do Flamengo.

Logo após, Marilene recebeu um convite para escrever uma coluna sobre futebol no jornal Última Hora. A coluna foi uma sensação e uma conquista tão grande, que motivou mulheres a falarem mais sobre futebol e a irem aos estádios.

Mais tarde, no fim da década de 70, começou a trabalhar com a assessoria de imprensa do Clube de Regatas de Flamengo. Nesta oportunidade, trabalhou com Adílio, Leandro, Zico e outras estrelas do Flamengo, que em 1981 conquistariam a Libertadores e o Mundial de Clubes. O trabalho de Marilene foi tão importante para o clube, que em 2009, o Flamengo inaugurou uma nova sala de imprensa e a batizou de Sala Jornalista Marilene Dabus.

Hoje, dia 10 de dezembro foi lançado o livro que conta a história de Marilene. Escrito por Marcos Eduardo Neves, que tem em seu currículo biografias com as de Nunes e Renato Gaúcho, o livro leva como nome A Moça do Flamengo. O autor, gentilmente nos concedeu uma breve declaração sobre a história de Marilene:

“A Marilene Dabus sempre foi uma figura muito interessante, né? Porque trata-se da primeira mulher a cobrir futebol, a primeira repórter a cobrir futebol no Brasil. Por exemplo, uma das primeiras grandes matérias que ela fez com o Pelé, quando ela foi entrevistar o Pelé e falaram pra ele que ele ia ser entrevistado, quando ele se viu diante da Marilene, ele falou: “Pera aí, é você? E mulher entende de futebol?”. Ela entrou em um universo altamente machista, uma mulher bonita, que usava saia curta, salto alto, maquiagem. E tinha um conteúdo absurdo, um conteúdo principalmente de futebol muito forte. Sempre foi muito fã de futebol, teve tio jogador. Era daquelas torcedoras que pegava o carro dela, dirigia até os estádios de Bangu, Madureira, tudo para ver o Flamengo jogar".

Marcos também nos contou um pouco sobre a trajetória profissional de Marilene e de porque escrever um livro sobre sua história. “Ela inicia a carreira no Última Hora, depois vai para o Jornal dos Esportes. Ela chega a trabalhar em redações com Nelson Rodrigues, Nelson Motta, gente muito grande como ela, enfim. E por exemplo, a primeira vez que falaram do Zico na imprensa, quando o Zico ainda era um juvenil, foi a Marilene que assinou a matéria. Ela tem muita importância na história do jornalismo, do jornalismo esportivo. Então, valia um livro, né?”

Além disso, Marcos ressaltou a importância de Marilene para a história do Clube de Regatas do Flamengo:

“E aí, depois, ao longo do livro, a gente descobre que ela pegou o Centro de Treinamento George Hela e virou o Ninho do Urubu. A gente descobre que ela criou a Boutique do Flamengo. Hoje tem várias lojas do Flamengo, com licenciamento, mas ela criou isso lá na Gávea. Ela organizou o clube. Chegavam cartas do Nordeste, do país inteiro, ninguém respondia. Ela deu uma organização ao clube, criou o Baile do Vermelho e Preto, que foi um sucesso carnavalesco enquanto durou. Então, ela tem muita importância. Participou e foi braço direito do Márcio Braga naquela gestão que culminou com o Título Mundial de 81, a era Zico.”

Além disso, também antecipou o que os leitores podem esperar ao ler A Moça do Flamengo:

“A Marilene era uma história para ser contada. Hoje tem tantas mulheres aí, apresentando programas de esporte, comentando, sendo repórteres, e todas deviam agradecer e pedir vida longa à Marilene Dabus. Ela entrou desafiando o status quo, por isso. Então, acho que é isso, a história da Marilene é essa, é isso que o publico pode esperar. Principalmente estudantes de comunicação, meninas que fazem jornalismo. Eu acho que é tipo um dever cívico ler esse livro", destaca Marcos.


Obrigada Marcos Eduardo Neves, por transformar em linhas uma história tão incrível, e por dividir com o Futebol por Elas um pouco da história de Marilene.

E principalmente, obrigada Marilene! Sem mulheres como você, nós encontraríamos as portas ainda mais fechadas. Obrigada pela coragem, pelo talento e pela autenticidade. Que nós consigamos seguir nesse caminho que você começou a trilhar anos atrás.

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