70 anos de um Maracanã meu, seu, nosso

Atualizado: 24 de Jul de 2020

Eu me lembro do som. Me lembro do cheiro. Me lembro da chuva. Me lembro do arrepio. Me lembro de tudo da primeira vez que assisti o Flamengo jogar no Maracanã. Meu coração rubro-negro ansiava por esse dia desde que descobri o que era o futebol.


Saí mais cedo do trabalho, peguei a van, muita chuva e muito engarrafamento. No peito um aperto gigante de querer chegar logo. Parecia mentira.


Avisei meu pai já no caminho: "não me espera, to indo pro Maracanã". As reclamações ouviria quando chegasse em casa, afinal, ele nunca concordou com essa ideia. Eu já tinha insistido muitas vezes em ir, tantas que perdi a conta. O Rio é perigoso, estádio tem briga, a volta é tarde, todas as justificativas. Nada disso passava pela minha cabeça. Eu precisava estar lá.


E lá estava ele. Majestoso. Iluminado. Cheguei. E tremia. Tremi como as rampas de acesso que tremem quando a torcida passa. Ou talvez não estivesse tremendo. Talvez eu estivesse vibrando. Vibrando na mesma sintonia do Maracanã. Em algum lugar naquela pilha de concreto bate um coração que pulsa forte, e o meu batia junto.


Eu me lembro do som. Me lembro do cheiro. Me lembro da chuva. Me lembro do arrepio. Me lembro de enxergar o gramado. Parecia tão grande, mas tão perto. Parecia pequeno demais para toda a emoção que sentia. O tempo voava e eu queria respirar todo ar que pudesse dentro daquela atmosfera.


Eu não era a única. Éramos milhares e sempre fomos milhares. O coração que pulsava éramos nós naquela arquibancada. Corações rubro-negros que cantam juntos em uníssono, como se tivessem ensaiado durante a vida toda. Porque ensaiaram. Era eu. O homem de terno que saiu do escritório apressado. A criança com o uniforme da escola por baixo da camisa do Flamengo. A senhora que segurava uma imagem de São Judas Tadeu, padroeiro dos flamenguistas. Éramos nós.


Me lembro do som. Me lembro do cheiro. Me lembro da chuva. Me lembro do arrepio. Apito. Começa. Me lembro de sentir todas as emoções. E a emoção do gol. E a arquibancada explodiu. Era eu. Éramos nós. Era o homem de terno, a criança e a senhora. Éramos um só. Em um único abraço. Um único coração que pulsa forte. Apito. Termina. O coração descansa, acalma. Mas não por muito tempo. Logo logo tudo recomeça.


São 70 anos da sua inauguração, Maracanã. Hoje você descansa esse coração. Daqui uns meses a gente se encontra e repete todas as emoções. Porque cada vez no Maracanã é a primeira vez!

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