• Taísi Sorrini

A chatice do futebol moderno

Atualizado: 24 de Jul de 2020

Transformações sociais, econômicas e tecnológicas mudaram o mundo, e consequentemente o futebol também. Nos últimos anos, o esporte centenário que fascina multidões, ganhou uma roupagem mais moderna, técnico, sério e profissional demais; e o verdadeiro “futebol arte” foi ofuscado pela elitização, mercantilização e espetacularização. E, sinceramente, tornou-se bastante chato.

Desde a década de 80 o futebol moderno vem ganhando força dentro e fora dos gramados do mundo. Não só tecnicamente, mas principalmente pelo fato do esporte que antes era agregador e democrático, ser hoje uma indústria bilionária dominada por ganância, exibicionismo e elitismo.

Os charmosos estádios, com suas acolhedoras arquibancadas de cimento e os desgastados alambrados, que antes eram palco do futebol simples e artístico, tiveram suas cortinas fechadas e transformaram-se em monumentais e inovadoras arenas.

O público que assiste ao espetáculo tático e operacional é controlado e ocupa cadeiras numeradas, nada de bandeirões, sinalizadores e instrumentos musicais, muito menos bebidas alcoólicas.

Uma grande porção da plateia assume a postura da tendência europeia, onde a euforia no ato do gol é retribuída ao artista, vulgo goleador, com uma contida salva de palmas de aprovação. Inclusive, entre um lance e outro, desembolsam oito, dez ou vinte reais para saborearem um picolé, um saquinho de pipocas ou um copo de refrigerante.

Vale ressaltar que esses espectadores são, em sua maioria, aqueles que investem uma bagatela em programas de fidelidade dos clubes para terem preferência na compra de ingressos e que também se submetem a pagarem valores exorbitantes para assistirem aos jogos de futebol.

As arenas tornaram-se uma barreira social e excluíram os torcedores sem condições financeiras de participarem da festa, calando seus gritos de amor pelo time. A torcida, hoje mais consumidora do que incentivadora, deixou de ser aquele décimo segundo jogador em campo capaz de determinar o resultado final de uma partida.

Além disso, em campo, a tecnificação do futebol também contribuiu para engessar e tornar os jogos impressionantemente tediosos. Os comandantes de terno e gravatas, que não perduram mais que três derrotas no clube, mergulham em cursos profissionalizantes e se munem de tablets e aplicativos para avaliarem a eficiência do seu time enquanto a bola rola.

Os lances são minimamente analisados por eles e por árbitros de vídeo (VAR), que obrigam os torcedores a esperarem sofridos minutos para comemorem o gol após a bola entrar na rede, enquanto o fato passa por um minucioso raio x sob os olhos atentos de diversos juízes. O coração precisa de paciência e a euforia é extravasada com delay.

Dentro das quatro linhas o individualismo, a vaidade e a mesquinharia também se sobressaem, fruto da constante injeção de dinheiro por parte de empresas e patrocinadores que veem no esporte uma fonte muitíssimo lucrativa.

Hoje, todos sabem, que o jogador que entra em campo é aquele que tem por trás o empresário mais influente e não aquele atleta mais habilidoso. E isso se reflete diretamente nas categorias de base da maioria dos clubes brasileiros, onde os pequenos esportistas respiram esse ambiente ambicioso e longe de vestirem a camisa da seleção brasileira, sonham primeiro com os grandes clubes europeus pelas oportunidades milionárias. Essa exposição ao dinheiro rápido e fácil inflama o ego e distancia as futuras gerações das suas raízes.

Às vezes, o corte de cabelo chamativo, a chuteira estilosa, os brincos de diamantes, a propaganda para uma determinada marca na televisão, a quantidade de seguidores nas redes sociais e o número de curtidas em publicações são mais relevantes que fazer o gol que pode definir o campeonato, acertar aquele pênalti decisivo, driblar o adversário com genialidade, defender com perfeição uma falta perigosa, dar uma boa entrevista diante da imprensa e até mesmo autografar a camisa do seu torcedor.

E essa egolatria é ainda mais estimulada quando técnicos, ao invés de formarem profissionais maduros, passam as mãos na cabeça de determinados jogadores enquanto são sabatinados em entrevistas coletivas para pouparem o seu emocional. E assim, consequentemente, meninos mimados criam uma relação fria e distante com a imprensa e seus admiradores, não dando à cara a tapa quando a vitória não vem, quando o rebaixamento está próximo ou simplesmente quando não tiveram uma boa atuação na partida do dia. É bastante preocupante, pois são esses os ídolos das crianças e aqueles que vestem com paixão (?) a camisa canarinho.

Nitidamente, a infiltração de interesses empresariais no esporte e a consequente modernização do futebol tornaram a modalidade uma barreira social, segregando o público da sua fonte de lazer, distanciando dos estádios as camadas sociais de menor poder aquisitivo e privilegiando os endinheirados.

A vaidade, a ganância e o egoísmo, atualmente, também são marcas registradas entre jogadores e comissões técnicas, que promovem um futebol mais individualista, marqueteiro e mimado. E a cada partida, o esporte apaixonante vê sua chama se apagar e o coração de seus torcedores baterem de maneira menos vibrante. A cada minuto, o futebol está mais frio, distante e vendido. Esse é o futebol moderno. Esse é o futebol chato.

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