• Carla Dayube Nunes

A dança das cadeiras dos técnicos brasileiros

Atualizado: Jan 16

Você sabia que o Brasil é o 26º país que mais troca de técnicos no mundo? Depois de confirmada a saída de Jorge Jesus, do comando técnico do Flamengo ao Benfica, de Portugal, o assunto mais uma vez veio à tona, mostrando o quão frágil é a estrutura que o futebol brasileiro oferece em termos de continuidade de trabalho aos treinadores.


foto: Alexandre Cassiano/divulgação

Obviamente, o caso de Jorge Jesus foi dentro de circunstâncias diferentes e, de acordo com o vice de futebol do Flamengo, Marcos Braz, não era da vontade do clube, porém, respeitava a decisão e afirmava que o Mister saía pela porta da frente.


Jesus, ao anunciar a sua saída, se manifestou nas redes sociais com uma nota oficial de despedida, agradecendo os “13 meses de uma 'união perfeita' (...), tivemos conquistas incríveis". O português ainda afirmou que "o rompimento não deixará cicatrizes, somente lembranças de vitórias e títulos, carregados por toda a vida”.


Mas, sabemos que nem toda a história termina em uma relação harmônica de amor entre técnicos, diretoria e, principalmente, torcida. Desde 2011, os times da Série A realizaram 472 trocas de comandantes. O número é muito superior ao observado nos clubes da elite da Alemanha, Espanha, França, Inglaterra e Itália. Em um levantamento especial feito pelo Globo Esporte, em mais de 1.300 trabalhos analisados e cerca de 30 mil jogos contabilizados, podemos ter uma boa ideia do que se acontece no mundo dos donos da prancheta do futebol nacional.


Seis meses: esse é o tempo em média que um treinador permanece à frente de um time. Os motivos geralmente são os mesmos: a insatisfação e a cobrança por parte dos torcida e da diretoria por resultados - uma sequência de resultados negativos ou perdas de títulos importantes.


De acordo com o levantamento, ainda, Fortaleza e Athletico Paranaense são os times com mais trocas de técnicos. Enquanto o Grêmio desponta como “campeão” no que se diz respeito a menor rotatividade. Sendo assim, Renato Gaúcho, é o treinador que está no comando de um clube brasileiro por mais tempo: desde 19 de setembro de 2016 (três anos, 10 meses e 3 dias). Mas quem está contando, não é mesmo?!


Observa-se então, que a cultura de maior paciência, respeito, entendimento e importância do tempo de trabalho do treinador, são muito mais respeitadas nas ligas europeias. De acordo com o comentarista, Muricy Ramalho, na Europa, os clubes presam por qualidade e contratam os melhores técnicos, bons gestores.


Enquanto isso, somos reflexo e exemplo de cobranças, tanto da diretoria quanto da torcida, por resultados imediatos, mesmo que falte estrutura e condições adequadas de trabalho. No Brasil, os conselheiros e as torcidas pressionam o presidente para tirar o técnico.


Os técnicos só são bons enquanto dão resultados imediatos, sem planejamento, estrutura ou a tão necessária continuidade. Quando esses resultados param de acontecer, a paixão e falta de racionalidade falam mais alto. Vamos levar em conta algo que talvez não tenha passado em nosso crivo antes: o quê as instituições de futebol têm feito pelos clubes, principalmente por aqueles mais desprovidos? Qual é o tipo de suporte que tem dado para que os técnicos se aprimorem e renovem as suas táticas, adquiram mais conhecimentos e estratégias de jogo? Como ser um bom técnico sem condições de investir na sua força de trabalho?


foto: divulgação

Em 2019, houve uma reunião entre a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) e o Conselho Técnico da Série A do Campeonato Brasileiro. Foi proposto ao conselho o limite de uma única troca anual dos técnicos durante o Brasileirão. No mesmo dia, porém, o site O Globo veiculou a informação de que, por maioria, os dirigentes dos clubes rejeitaram a referida medida, sob o argumento de que seria muito restritiva, bem como inexistiria a definição de um melhor critério para certas situações, como eventual demissão por justa causa.


Para justificar a adoção de tal medida, defendia-se uma maior organização com o intuito de não afetar o desenvolvimento do futebol brasileiro. Com relação a essa nova proposta, os dirigentes argumentaram que as modificações sugeridas elevariam o patamar do Campeonato Brasileiro e poderia de tal forma, começar um processo de equipará-lo ao futebol europeu.


Entretanto, o que fazer para evitar os rodízios de técnicos sem que seja imposta uma lei que abra precedentes para outras situações? Até onde podemos esperar, apostar em um trabalho de um treinador e arriscar um rebaixamento ou perder um campeonato importante?


Faz-se imperativa a necessidade de que o técnico venha para o clube entendendo a sua real situação e que possa trabalhar em sua forma total, demonstrando a sua competência e a capacidade de lidar com o plantel apresentado. Apresentar soluções, jogadas, aprimorar um trabalho, lapidar as jóias da base e as do time principal, entendendo a situação financeira do clube e saber que a cada jogo, lida com as paixões, cobranças da torcida e cair nas graças da torcida.


Carla e seu pai, ao lado do técnico Renato Gaúcho (foto: arquivo pessoal)

Verdade seja dita: jogos geram renda. Torcedores felizes e satisfeitos com seus times e respectivos técnicos vão aos jogos, compram copos, bonés e diversos produtos oficiais. É a máquina da economia dos clubes que também não pode parar de girar.


Não é um trabalho fácil ou, na maioria das vezes, grato. Demonstra-se cada vez mais necessário o investimento e a capacitação de treinadores, bem como um suporte maior por parte do clube e da confederação. E saber segurar o coração dos torcedores, apaixonados, à espera de grandes vitórias.

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