• Eduarda Porfírio

A final que ficaria para a história

Não consegui pregar o olho uma hora sequer durante a noite. Era surreal demais encarar a realidade. Quando parava para pensar ficava arrepiada. Parece que foi ontem que saí de Alagoas para jogar no Vasco. Minha mãe estava com medo, mas mesmo assim me encorajou a ir junto com a minha avó que disse: “Você só tem a perder ficando aqui.” Foram imensas dificuldades desde o início. Afinal, mulher jogando bola nunca foi algo bem visto nesse país. Porém, o que mais poderia fazer se a minha alegria estava em fazer embaixadinhas? Me chamavam de tudo o que era nome, menos de princesa. Muito menos rainha. Contudo, não podia parar. Futebol era uma das poucas coisas que fazia bem. Encontrei outras mulheres que assim como eu lutavam por espaço que nos foi negado, o fardo automaticamente tornou-se um pouco leve. Era bom saber que não estava sozinha, ainda que me entristecia as condições a que éramos submetidas em nosso próprio país. Apesar de ser privilegiada por jogar na Suécia, contexto bem distinto do brasileiro, faço parte da seleção nacional. Não há investimento nenhum para nós, ficamos com as sobras. Sem atenção para equipes de base, até o uniforme é igual ao dos rapazes. Entretanto, chegamos aqui. Na raça, com dedicação, dando o sangue praticamente. Tentaram nos parar, nos silenciar. Não gostavam muito quando reclamávamos por melhores condições. Mas isso só me deixou com mais fome de gol.

As horas não passavam e eu queria estar logo em campo. Já não tinha mais unhas para roer. Cristiane me falava para relaxar, que já éramos campeãs por termos conseguidos mostrar do que somos capazes. Não dava, só depois de receber o ouro ou a prata. O que viesse era lucro. Tínhamos dado nosso melhor. Meus olhos se encheram d’água quando vi o Maracanã lotado. Parecia final de Copa do Mundo. A partida passou como um flash. Meu coração estava a mil, só ouvia os gritos de gol e contei cinco. Tudo bem que não era a equipe principal dos Estados Unidos, porém, elas haviam tido um bom desempenho na competição. Colocaram uma medalha de ouro bonita em meu pescoço. Olhei ao redor, vi meu técnico, a torcida, pensei em minha mãe e minha avó que sempre me apoiaram. Meus olhos não aguentaram. Naquele dia eu sabia, entrávamos para a história. As coisas seriam diferentes.

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