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A liberdade de expressão no esporte

É comum nas entrevistas dos atletas durante as partidas de futebol ouvirmos: “foi tudo como o professor pediu, a gente se esforçou e o que importa são os três pontos”, “"o time jogou bem, mas infelizmente faltou atenção", "o mérito é do grupo" ou "vamos ver o que o professor fala".


Não estamos acostumados a presenciar jogadores críticos ou com posicionamento político nas quadras e campos do Brasil. A verdade é que quando há jogadores que possuem discursos críticos, fora dos padrões e com estereótipos de boleiros, estes são vistos como “mimimi” ou até como chatos.


Quando ocorrem tais atos de protesto ou de falas com conteúdo político e/ou religioso ocorrem punições a tais atos, visto que, as entidades organizadoras do esporte como a Fifa, Odepa, COI, CBF não permitem. O papel do atleta é direcionado ao entretenimento e segundo estes órgãos levar a discussão política para dentro das quatro linhas poderia interferir nesse objetivo.


Será mesmo que os jogadores devem servir somente ao entretenimento? Não seria essa uma forma de podá-los ou diminuir sua importância considerando-os apenas meras peças de jogo? Em tempos de luta pela democracia, a liberdade de expressão é fundamental na construção de uma sociedade menos injusta. Muitos jogadores possuem status de artista e de fato são influenciadores. Suas falas, atos e gestos podem contribuir para uma sociedade mais igualitária e por que não dizer, menos alienada.


O futebol como o esporte mais popular do mundo pode contribuir de forma efetiva no combate ao racismo, homofobia, assédio contra a mulher e por que não propiciar discussões políticas? Mas a gerência da prática profissional demonstra-se um tanto conservadora, a ponto de punir a liberdade de expressão dos atletas, onde só é permitido expressar o que convém e o que não vai interferir nas relações comerciais, econômicas e nas relações institucionais pré- estabelecidas.


Vejamos alguns casos:

1968- Norte-americanos conquistaram as medalhas de ouro e de bronze nos 200 metros dos Jogos Olímpicos da Cidade do México. Tommie Smith, John Carlos e Peter Norman protestaram contra a segregação racial nos Estados Unidos durante a cerimônia protocolar que foi imortalizado. O Comité Olímpico Internacional exigiu que os atletas norte-americanos abandonassem a Aldeia Olímpica e só tiveram sucesso depois de ameaçar banir toda a equipe de atletismo.


1980– Democracia Corinthiana: o mais conhecido movimento de atletas na política, ainda durante a ditadura civil-militar, quando os jogadores do Corinthians resolveram criar um movimento chamado de “democracia corintiana", liderado por jogadores como Sócrates e Casagrande. O movimento se tornou um forte símbolo de luta pela democracia no Brasil. Atletas do clube entraram nas campanhas pelas eleições livres e diretas no país.


2013– Durante a Copa da Confederações, a empresa Lupo lançou uma propaganda de cuecas com o atacante Neymar que casou repulsa por suposto ato de homofobia. Na peça publicitária o jogador vestindo cueca se mostra a algumas clientes. Quando chega um cliente homem e pede para ver a vestimenta, Neymar sai correndo.


2013- os jogadores brasileiros descontentes com a atuação da CBF criaram o Bom Senso Futebol Clube. O movimento de jogadores por melhores condições de trabalho começou a demorar um minuto antes das partidas de determinada rodada do Campeonato Brasileiro em protesto à organização do futebol no Brasil. Alguns árbitros foram orientados a punir com cartão quem atrasasse a partida, fazendo com que os jogadores mudassem a tática, tocando a bola bem devagar. Os jogadores repudiaram o desinteresse da CBF sobre os seguintes pontos importantes que envolvem o futebol brasileiro: calendário para 2015, número de jogos dos clubes menores, datas FIFA concomitantes com jogos no país, causando prejuízo técnico nas competições, e Fair Play Financeiro.


Na época, Pelé opinou sobre a iniciativa tomada pelos atletas: “Não vai ter repercussão nenhuma. Não vai mudar nada". O grupo que contava com atletas como Paulo André, Alex, Juan, Fernando Prass, Barcos, D'Alessandro, entre outros, saiu de cena. Como é natural da profissão, alguns atletas transferiram-se para o Exterior, outros se aposentaram. Outros atletas que vestiam a causa perderam espaço em suas equipes e, assim, não tinham o mesmo protagonismo de antes. Um dos fatores que levou ao término foi o medo de alguns atletas em sofrer retaliações de dirigentes e que bloqueou o surgimento de novos integrantes para levarem adiante a causa.


2018– protesto pela morte da vereadora do Rio de Janeiro Marielle Franco - as mantenedoras dos estádios do “Mineirão” e da Arena do Grêmio proibiram que torcidas organizadas expusessem faixas em solidariedade rechaçando a barbárie e a violência.


2020 - Carol Solsberg foi denunciada pela procuradoria do STJD por gritar “Fora, Bolsonaro”, ao finalizar uma entrevista ao canal SporTV, após ganhar o bronze em uma partida da etapa de Saquarema (RJ) .


A atleta para participar da etapa do Circuito Nacional de Vôlei de praia assinou um termo concordando com o regulamento da competição, que diz no item 3.3: " o jogador se compromete a não divulgar, através dos meios comunicações, sua opinião pessoal ou informação que reflita críticas ou possa, direta ou indiretamente, prejudicar ou denegrir a imagem da CBV e/ou os patrocinadores e parceiros comerciais das competições".


A CBV emitiu nota repudiando a postura da atleta e utilizou o termo racista “denegrir” para dizer que a jogadora “manchou a imagem” da modalidade nacionalmente. Ainda garantiu que tomaria todas as medias cabíveis para punir a atleta. A Comissão Nacional de Atletas de Vôlei de Praia também criticou a atleta avisando que vai lutar pela proibição de posicionamentos do tipo.


Carol foi denunciada após gritar "Fora Bolsonaro" (foto: divulgação)

Na denúncia, o STJD havia citado dois artigos do Código Brasileiro de Justiça Desportiva (CBJD). O primeiro deles, o artigo 191, que trata sobre a penalização do atleta que deixar de cumprir o regulamento da competição, o segundo, o artigo 258, onde estabelece penalidade ao atleta que “assumir qualquer conduta contrária à disciplina ou à ética desportiva não tipificada pelas demais regras do código”.


Pelo primeiro artigo, que previa a multa R$ 100 mil, a penalização foi convertida primeiro em uma multa de R$ 1 mil e depois em advertência. Pelo segundo, que pedia a suspensão de até seis partidas, provas ou equivalentes, a atleta foi absolvida. Os auditores também deixaram claro que Carol não pode voltar a se manifestar politicamente na quadra de jogo. Tanto a procuradoria quanto a defesa podem recorrer ao Tribunal Pleno do STJD.

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