• Stephany Locatelli

A volta do futebol reflete o descompromisso do Brasil com sua população

Atualizado: Jan 17

Desde que o futebol voltou no Brasil ele está sendo tratado como “o futebol pós-pandemia”, acontece que aqui no nosso país o futebol voltou “durante” a pandemia. Ou seja, não dá para simplesmente descartar tudo o que ainda está acontecendo no país só porque o futebol voltou. Sinceramente, quando é que nós vamos começar a levar em conta o que realmente importa?


ArtMassa-iStock

Há muitos que defendem a volta do futebol como algo positivo para distrair e entreter pessoas num momento tão difícil. E claro, o que não falta são argumentos para defender essa decisão: “Na Alemanha, na Espanha e até mesmo na Itália, que foi considerado o epicentro da pandemia, o futebol já voltou. Não tem motivo para aqui no Brasil ser diferente.” A questão é que a forma que esses países conduziram o combate à pandemia é completamente diferente do que acontece aqui no Brasil. Pensando na Alemanha, que foi o primeiro país a retomar a atividade esportiva, as medidas adotadas lá foram consideradas as mais eficazes na luta para combater a doença. Querer comparar toda a política adotada levando em conta o isolamento social, testagens em massa e até mesmo o mapeamento de casos com as medidas adotadas pelo Brasil é ridículo. O futebol alemão retomou quando os números diários de infectados e mortes passaram a diminuir. Sem falar que as atividades esportivas receberam total respaldo para manter a segurança e a saúde de todos envolvidos no espetáculo.


No Brasil, por outro lado, não tivemos nem de longe uma postura semelhante. A questão é apenas política e quem realmente deveria estar a frente preocupando-se com a população não está ligando a mínima, e isso é provado com o desprezo pela vida. O presidente da República reduziu a pandemia a uma “gripezinha” desrespeitando todas as medidas e recomendações da Organização Mundial da Saúde e demais especialistas. O país não respeitou a quarentena como era previsto, mudou de ministro da saúde inúmeras vezes em um curto intervalo de tempo. E foi por esses e outros motivos que o país passou a ser um dos locais mais afetados pela pandemia.


E a defesa para a volta do futebol tem muito a ver com isso. A volta do futebol reflete o descompromisso do Brasil com seu povo, porque não há um argumento que anule a eficácia do isolamento e mesmo que alguém tente argumentar com base em algo, isso não passará de um pensamento retórico no qual com um pouco de persuasão tentará fingir que está tudo, quando na verdade não está.


O futebol não deveria ter voltado, mas já que voltou a pauta da entidade máxima responsável pelo futebol brasileiro, a CBF, e dos clubes envolvidos nas competições nacionais deveria ser sobre uma nova paralisação. Todavia, o futebol visto como negócio não pode sofrer mais uma paralisação, não é mesmo? Isso seria sinônimo de prejuízo visto que com a parada do esporte os clubes deixaram de receber receitas de público, de televisão. Então seria loucura apostarem em uma nova parada.


E para continuar com o futebol na televisão são capazes de tudo. Jogadores que testaram positivo para a covid-19 receberam liberação para atuarem em campo e jogos que foram cancelados por conta de muitos jogadores terem testado positivo foram criticados por uma parcela das pessoas. E pasmem... A CBF sinalizou que até outubro os estádios poderão receber o público! Conseguem perceber o descaso com a vida?


O futebol não é importante agora. Vidas estão sendo colocadas em risco a cada momento mais em que insistimos em continuar fingindo que nada está acontecendo, quando na verdade todos os sites esportivos informam a mesma coisa:


- “Quatro jogadores do Sampaio Corrêa testam positivo” - Jovem Pan

- “Brasileiro já soma três jogos adiados e mais de 50 jogadores com covid-19” - Uol Esporte

- “Técnico do Figueirense testa positivo para Covid-19 e não comanda o time nas próximas partidas” - Esporte Interativo

- “Atlético-GO consegue recurso na CBF para escalar jogadores que testaram positivo para covid-19” - Globo Esporte

- “Dorival Junior é diagnosticado com Covid-19 e não comanda o Athletico contra o Santos” – Globo Esporte

- “CBF adia CSA x Cuiabá na Série B. Alagoanos têm 20 casos de covid-19” - Agência Brasil


Essas são só algumas das inúmeras matérias diárias que dizem a mesma coisa, mas que são ignoradas ou vistas como normal. Infelizmente, o futebol visto como negócio não está ligando para quantos casos são confirmados por dia, não está ligando para quantas vidas a doença arranca por dia, não está ligando para os números da pandemia. O futebol visto como negócio só quer lucrar, não importa a situação do país, só quer lucrar!


Nesse jogo estamos perdendo feio. Se para o brasileiro lembrar-se do 7 a 1 é vexatório, saiba que mais vexatório que isso é concordar com a bola rolando em campo enquanto vidas são perdidas no hospital. Essa mancha é maior do que qualquer goleada poderia ser. Por fim, refaço a pergunta do início deste texto: quando é que nós vamos começar a levar em conta o que realmente importa?

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