• advcarlasouto

Abra o microfone para Yvonne comentar

Atualizado: Jan 16

Nas transmissões de futebol nos dias atuais não é raro ver a presença das mulheres nas cabines esportivas comentando sobre futebol, nas arquibancadas colhendo a fala de torcedores ou até no gramado ouvindo jogadores, técnicos ou a equipe de arbitragem. Porém, as mulheres enfrentaram inúmeras barreiras para poder sentar em uma bancada esportiva, pois a inserção das mulheres no futebol foi por muito tempo proibida. Quando se fala da presença feminina no futebol há o que se chama de “preconceito no discurso circulante”, isto é, naturalizou-se em nossa cultura os espaços determinados de ocupação de homens e mulheres. Certamente, o futebol ficou restrito à um espaço exclusivamente masculino não sendo permitida a inserção das mulheres.


Há registros que em 1882, Rui Barbosa foi o relator do projeto sobre a Reforma do ensino primário onde tornou obrigatória a prática da ginástica para ambos os sexos no Brasil, mas com uma ressalva em relação às mulheres que “devia se adequar à harmonia das formas femininas e às exigências da maternidade futura”.


“Sob bases biológicas e fisiológicas, alegavam quais seriam as atividades adequadas para o corpo e a saúde das mulheres, futuras mães" (KNIJNIK, 2001)

O papel da mulher, por muitos e longos anos, estava subordinado ao homem justificadas sob aspecto biológico. Cabia a ela exercer as funções de mãe- esposa-dona de casa. Dessa forma, restava às mulheres se dedicar à família, ao casamento, à educação dos filhos e cuidar de sua honra. As mulheres que saíssem deste padrão eram consideradas despidas do sentimento de maternidade, portanto, deveriam ser afastadas do convívio social.


Neste contexto, o Conselho Nacional de Desportos em 1965, proibiu as mulheres à prática de atividades como pólo, halterofilismo, beisebol e também de lutas. Inclusive há relatos de pesquisadores de que houveram prisões de mulheres que infringiram o decreto do CND. Em 1979 o Conselho Nacional de Desportos avançou quando revogou a deliberação nº. 7/65, substituindo-a pela de nº. 10/79. A legislação trouxe a liberação das práticas já citadas que lhe eram proibidas.


No ano de 1980 / 1981, o futebol ganhou visibilidade nos estados de São Paulo e Rio de Janeiro, onde se criou a primeira liga de futebol feminino. Podemos destacar o surgimento de alguns campeonatos da época: I Campeonato de futebol de praia feminino do Rio de Janeiro; I Torneio de Futebol Society Feminino - Casas Pernambucanas; I Cop Regine’s Cinzano de Futebol Feminino e a Copa Unibanco de Futebol Feminino; I Campeonato Carioca de futebol e o Copertone Open de futebol feminino.


Importante salientar que nesse período a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) tentou impedir a expansão do futebol feminino vetando a realização de campeonatos femininos em estádios oficiais. Eram poucos os campeonatos que eram sediados em estádios oficiais. Porém, aqueles que ocorriam em estádios oficiais eram tratados como festivais e não como competição.


A historiadora Giovanna Capucim e Silva em seu livro Mulheres Impedidas: A proibição do futebol feminino na imprensa de São Paulo” conta que mesmo assim as mulheres desafiaram toda e qualquer proibição e jogavam futebol mesmo assim. Em seus estudos ela afirma que “elas jogavam, principalmente, em campos de várzea e em locais em que o Estado não chega, como as periferias. Isso é muito importante destacar. Essa resistência estatal, na verdade, era o menor obstáculo que elas encontravam de vizinhos ou de familiares, por exemplo, pesavam muito mais”.


Também havia lá por volta da década de 30 relatos sobre a presença das mulheres ocupando as arquibancadas. Estas mulheres que amavam assistir futebol eram ridicularizadas e alguns entendiam ser uma verdadeira ousadia usar sua melhor roupa para assistir a uma partida de futebol.


Esse caminho da luta pela inserção das mulheres no futebol foi longo. Um histórico de preconceitos sob ótica biológica levou à proibição da prática esportiva e deixou resquícios que atingem as mulheres que possuem ligação com futebol nas mais diversas áreas (bandeirinhas, arbitras, jornalistas esportivas, advogadas desportivas, etc..). O machismo e a misoginia seguem vivos até hoje. Quando se pensa que não existe mais esse tipo de preconceito surge algum caso de violência à alguma profissional ligada ao futebol.


No final dos anos 50, uma verdadeira defensora do futebol feminino. Não podemos escrever este artigo sem que seu nome seja mencionado: Ivone ou Yvonne dos Santos. Atleta do clube Botafogo, atleta de várias modalidades esportivas, mas destacou-se na prática do atletismo. O periódico n’O Cruzeiro em 1948 destacou que a atleta era especialista em lançamento de peso, dardo e 100 metros rasos. Yvonne conquistou diversas medalhas no atletismo, volley, basquete e ainda foi eleita Miss Botafogo e ainda representou o clube no Miss Campeonato daquele ano.


Depois tornou-se cronista do Diário da Noite. Embora tenha sido contratada para falar sobre basquete, promoveu inúmeros debates com o intuito de fortalecer o futebol feminino. Yvonne foi contra todo o sistema machista e rechaçou todos os discursos que proibiam a presença das mulheres nos campos de futebol. Yvonne não se conteve somente em defender o futebol feminino, mas abriu espaço para que algumas atletas em destaque pudessem discutir o futebol no principal veículo de mídia existente na época.


Outro registro muito importante é que Yvonne lançou a “Folhaseca- Revista Desportiva, em comemoração de oito anos do Maracanã. Uma revista distribuída aos domingos (dias de jogo) nos espaços dos estádios.


Pois é, Yvone era afrontosa, sabia se posicionar, sua ocupação de forma competente em um espaço predominantemente de homens foi um marco para todas nós amantes do futebol. Dessa forma, o espaço para as mulheres no futebol ia se abrindo: Graças a Yvonne dos Santos! Surgiram muitas outras como Marilene Dabus, Germana Galli, Semiramis Alves Teixeira, Zuleide Ranieri Dias, Regiani Ritter e outras que conhecemos bem: Mylena Ciribelli, Glenda Kozlowski, Milly Lacombe, Renata Fan e Fernanda Gentil.


É uma grande honra em não poder citar todas as mulheres que nos ensinam muito sobre futebol. Hoje somos muitas! Aprendemos a ser Yvonne, enfrentar todos os preconceitos e seguir nosso trabalho. Hoje, inspiramos outras mulheres a torcer e ocupar as arquibancadas. Inspiramos e aspiramos comandar programas esportivos, apitar jogos, fazer reportagem de campo, atuar como comentarista esportiva em mesas redondas e até narrar jogos!


Não temos como não agradecer: Obrigada pela luta Yvonne! Tua luta fica na Hi

0 comentário

Posts recentes

Ver tudo

Receba as novidades

do Futebol Por Elas

  • Facebook - Black Circle
  • Twitter - Black Circle
  • YouTube - Black Circle
  • Instagram - Black Circle