• Stephany Locatelli

Análise: Jesualdo Ferreira no Santos

Atualizado: Jul 24

Creio que ainda seja muito cedo para analisar o trabalho de Jesualdo Ferreira no Santos, entretanto, diante de tantos debates em relação a isso, me vi na vontade de escrever o que penso do novo comandante santista. É importante ressaltar que minha linha de pensamento será a mesma que usei em setembro do ano passado quando escrevi sobre Jorge Sampaoli aqui para o Futebol por Elas - Demagogia futebolística: o ano do Santos, ou seja, com base na paciência.


É evidente que o momento de ambos os treinadores é diferente, Sampaoli na época estava há quase nove meses no comando do Santos. Jesualdo está há três jogos! Todavia, como dito no meu texto anterior: no futebol brasileiro não há paciência. E é claro que Jesualdo já está sofrendo criticas negativas de boa parte da imprensa (e talvez, até de alguns de sua torcida). Mas por quê?


Esse texto não busca comparar Sampaoli e Jesualdo, até porque não há nexo algum nisso. Entretanto, para entender o motivo de tantas reclamações sobre o que o time de Jesualdo vem apresentando temos que lembrar um pouco de Sampaoli. O treinador argentino era ofensivo. A equipe do Santos em 2019 brilhou muito no ataque, mesmo ganhando por quatro ou cinco gol continuava buscando o gol seguinte incessantemente, mesmo que hora ou outra pecasse na defesa e tomasse o gol.


Já a equipe comandada pelo português preza pelo equilíbrio tanto no ataque quanto na defesa, inclusive quando perguntado sobre a falta de intensidade do time após o segundo jogo do Campeonato Paulista (Guarani), o treinador deu a seguinte declaração: “[...] O time vai poder aumentar a intensidade não através da corrida, mas sim da circulação de bola. Porque intensidade não é só correr, intensidade acima de tudo é a capacidade que as equipes tem de fazer movimentações táticas sem que tenha que correr muito. [...] é a bola que corre, sabe por quê? Ela não cansa!”.


A questão é: o Santos de 2020 não será igual o Santos de 2019. E isso, mesmo que para muitos seja um problema, na verdade não é. Apesar da semelhança entre os treinadores em alguns quesitos táticos, como o posicionamento ofensivo, ambos têm ideias diferentes de jogo. E como esse texto não é um comparativo ao trabalho de Sampaoli, vamos esquecê-lo agora e focar apenas em Jesualdo, sua tática e os últimos três jogos do peixe.


Estilo de jogo

O esquema preferido do português é o 4-3-3. Na defesa, o treinador preza por agressividade e pressão na roubada de bola e com um volante mais defensivo auxiliando na saída de bola (como vimos Alison nos primeiros jogos e Jobson no último). Para o treinador, ao perder a bola é preciso fazer pressão e pegar a posse de bola o quanto antes. E quando não estão com a mesma, o time inteiro precisa correr. A marcação é compacta e visa sempre o local do campo em que a bola foi roubada. O posicionamento dos jogadores também visa o próximo passo da equipe: quando a bola for roubada é preciso organizar rapidamente o contra-ataque (pode se ver isso, principalmente no jogo contra a Inter, onde os atacantes voltavam na defesa para logo que recuperada a bola saírem em velocidade, preferencialmente pelos lados, ao ataque).


Já no ataque, o treinador gosta de pontas com velocidade para poder abrir espaços rápidos para o time tocar a bola, é claro, baseado no posicionamento e na mobilidade dos jogadores. A posse de bola, como já vimos na parte defensiva é fundamental para o treinador. Com o time compacto é mais fácil fazer passes curtos e quebrar as linhas adversárias com maior facilidade. Chutões não estão no repertorio do português, ele preza e muito pela construção ofensiva e controlada da bola. O objetivo é circular a bola até encontrar as brechas necessárias para atacar. O um contra um também é um arma utilizada por Jesualdo, visando o drible para resolver uma jogada de forma inesperada (Soteldo, certamente será a arma mais utilizada para essa ideia, mas há outros no elenco, como Tailson e o próprio Marinho com características para isso).


Últimos jogos

Talvez, ao invés de tratar isso como “últimos três jogos” seja necessário alterar para “primeiros três jogos”. Não foi possível ver toda essa temática de jogo em campo nesses três jogos, até porque o time contava com algumas ausências, como foi o caso do venezuelano Soteldo, que está servindo sua seleção no Pré Olímpico. Mas pode-se ter uma ideia do que esperar do Santos nessa temporada.


O Santos não fez uma pré-temporada, o primeiro jogo do time alvinegro não foi um amistoso ou teste, já foi valendo contra o RB Bragantino. Então, tendo em vista isso, não creio que o time tenha decepcionado. Mesmo que o time tenha saído do primeiro jogo com um empate sem gols, foi apenas o primeiro jogo da temporada! O ponto positivo (ou quase) foi a parte defensiva que começou no meio campo e em boa parte da partida levou a melhor. A posse de bola, entretanto, não foi como esperado. Na segunda partida, o Santos já teve mais o controle da bola, mas sofreu na criação de jogadas. O ritmo da equipe não foi o mesmo nos dois tempos e na etapa final, mesmo com um jogador a mais em campo, viu o Guarani ser melhor. Jesualdo depois do jogo falou sobre isso e disse que é fundamental a equipe saber controlar o jogo para não sofrer. O resultado positivo só veio graças a um gol contra nos minutos finais da partida.


No terceiro jogo, contra a Inter de Limeira, o time da Vila mostrou-se melhor do que nos dois últimos jogos. Soube controlar o jogo, teve posse de bola e criou jogadas. Se nos dois últimos jogos era quase impossível ver o trio de ataque, nesta quinta-feira, não foi. O time que enfrentou o time de Elano foi a campo com algumas mudanças em relação às duas últimas partidas: Jobson no lugar de Alison, Evandro no de Sanchéz (o camisa 5 e o camisa 7 entraram no decorrer da partida), Tailson no de Arthur Gomes e Uribe no de Sasha. Raniel, que chegou sendo contestado pelo último trabalho feito no São Paulo marcou os dois gols da noite. E não só isso, outro jogador constestado, Uribe, também fez uma boa partida, apesar de pecar na parte mais importante: finalização.


É um pouco genérico dizer que foi a melhor partida do ano, porque só tivemos três. Mas, a evolução pode ser percebida mesmo que nos pequenos detalhes, a passos lentos. Pode não ser com o torcedor santista espera, mas é como terá de se acostumar. Como o próprio Sasha disse em coletiva no último dia 29 deste mês de janeiro: “Mudar de uma hora para outra não é tão simples assim, não é tão fácil. Custa um tempo, as ideias são diferentes e a gente ‘tava’ acostumado com uma ideia e vai ter que mudar aos poucos!”.


O próximo jogo do Santos é o clássico contra o Corinthians no domingo, às 11h da manhã. Será um grande desafio e o time praiano poderá fazer um divisor de águas do realmente tem guardado para a temporada. Retomando o meu texto do ano passado: o sucesso leva tempo e cabe ao torcedor santista paciência para esperá-lo chegar.

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