• Anna Virginia

Arquibancadas invisíveis

Atualizado: Jul 24

Rafael Bernardo, educador físico apaixonado por futebol desde pequeno, só aos nove anos de idade descobriu que existia um time em sua cidade, Juiz de Fora. “Foi uma paixão que surgiu de repente. Em 2004, conheci o Tupi por causa de um amistoso que estava marcado contra o Fluminense. Quando fiquei sabendo quis ir ao estádio para conhecer o Romário, que jogava no Tricolor na época”, conta.

Rafael conheceu não só o ídolo, como também o time que acompanha até hoje - o Tupi Football Club. Nas arquibancadas do Estádio Radialista Mário Helênio, é possível identificá-lo no meio da torcida organizada Tribo Carijó. Quanto tempo demoraria para Rafael conhecer o Tupi caso um time de grande visibilidade nacional não houvesse disputado um amistoso com a equipe? Jamais saberemos. 


Estádio Municipal Radialista Mário Helênio, em Juiz de Fora. Foto: Portal Minas Gerais

Os pesquisadores Flávio de Campos (USP) e Luiz Henrique de Toledo (UFSCar) realizaram estudo antropológico intitulado “Brasil na Arquibancada: notas sobre a sociabilidade torcedora”, no qual reuniram uma equipe que cobriu 39 jogos de futebol na série B do campeonato brasileiro e 25 na série C no ano de 2012. Brasil afora, eles ouviram relatos de torcedores que não aparecem na grande mídia. "A concepção mais psicologizada do torcer, fortemente presente entre torcedores dos grandes clubes, e que parece cobrar uma coerência psíquica torcedora (um indivíduo, um nome, portanto, um clube para torcer), é bastante relativizada entre torcedores dos chamados times pequenos", pontuam os autores. 

Nas arquibancadas, os professores Flávio e Luiz Henrique encontraram exemplo de resistência regional ao modelo de torcer que aparece nos principais veículos de comunicação. Em geral, são os clubes de campeonatos de elite e que possuem maior número de torcedores que aparece na grande mídia. “Nas séries B e C encontramos também práticas que valorizam outras identidades para além da adesão torcedora monotemática, tais como identidades locais, regionais, bifiliações clubísticas, familismos esportivos, que alimentam outras formas de torcer certamente menos espetaculares do ponto de vista da produção da notícia, mas que sustentam outras percepções do futebol." Outra dupla de pesquisadores - Bruno Jeuken Souza e Victor Sá Ramalho Antônio - se debruçaram sobre o mesmo tema, resultando no estudo "Brasil na arquibancada: tradições, identidades e sociabilidades". Na pesquisa destacaram-se dois conceitos: a identidade clubística, que se refere a história, origem e características do time; e a sociabilidade torcedora que, como explicam os autores, é “a dinâmica dentro e fora do estádio, o modo como cada parcela da torcida passa pelo ritual que é um jogo de futebol”.


Eles descobriram estádios que ainda não haviam sido tomados totalmente pela lógica do consumo. Enquanto nas grandes Arenas montadas para a Copa do Mundo, o torcedor era tratado sobretudo como consumidor, a pesquisa observou que ainda havia espaço para simplesmente torcer nas divisões inferiores do campeonato nacional. "A elite do futebol, com mais cobertura da mídia, estádios sendo reformados ou construídos para que todos fiquem sentados e consumam antes, durante e depois dos jogos, está por se tornar também a elite da arquibancada", constataram. 

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