• Bárbara Merotto

Caio Martins: o primeiro estádio-prisão da América Latina

Lembrar para não esquecer


A história do futebol também faz parte da história do Brasil. Fazendo parte dela, reflete suas contradições, seus interesses, suas glórias e também suas dores. Muitas dessas dores se tornaram cicatrizes de uma parte terrível e cruel de nossa história. Uma noite que duraria 21 anos e que mudou o curso não apenas do nosso país como o da vida de milhares de pessoas.


Perseguições, prisões, torturas física e psicológica, estupros e desaparecimentos de pessoas. E no mundo do futebol a bola continuava rolando: se de um lado, grandes estádios foram construídos e fomos inclusive tricampeões mundiais, por outro, esse esporte tão popular, se tornou palco de conveniências e propaganda política. Médici, de torcedor gremista se tornou flamenguista e após o tricampeonato, ganhou até um torneio com seu nome. De 1964 a 1985, 17 estádios foram inaugurados, obras faraônicas construídas pelos militares - muitos com capacidade para até 30mil pessoas.


Tivemos ainda Ministro da Educação e Cultura interferindo em um GreNal e até mesmo o anúncio da morte de Carlos Marighella no intervalo de um jogo entre Santos e Corinthians no Pacaembu.

Pelé levanta a taça do tricampeonato mundial ao lado de Médici. Foto: Comissão Nacional da Verdade

Um dos cenários que ficou marcado nesse rasgo na história brasileira e mundial, foi o estádio Caio Martins, na cidade de Niterói, onde surge como primeiro estádio-prisão da América Latina e também como centro de uma política repressiva aplicada no estado do Rio de Janeiro, em consequência do golpe de estado de 1º de abril de 1964. O estádio inaugurado em 1941, recebeu este nome por um ato de altruísmo do escoteiro Caio Vianna Martins, que após um triste acidente ferroviário em 1938, recusou atendimento médico para que outros feridos pudessem ser socorridos, o que acabou acarretando sua morte pelo agravamento de seu ferimento.


O que começou como um pequeno estádio foi ganhando capacidade com seus 12 mil lugares, um ginásio, pista de atletismo e ganhou destaque com as disputas de jogos de clubes cariocas. Porém, em abril de 1964 foi transformado em prisão, ou como definiu ex-presos políticos, um verdadeiro “campo de concentração”. Apesar de o Departamento de Ordem Política e Social (DOPS) do Rio de Janeiro registrar 339 pessoas detidas, passaram por ali cerca de 1.200 presos políticos. A grande maioria das vítimas que estiveram presas no local, eram em sua grande maioria bancários, ferroviários, operários navais e trabalhadores do campo - não apenas de Niterói e São Gonçalo, mas de várias partes do Estado, e que fez cair por terra o mito de que a perseguição política começou apenas após o AI-5 de dezembro de 1968.


Matéria do jornal O Fluminense de 23 de abril de 1964. Foto: Acervo nacional

Niterói era marcada por uma intensa atividade sindicalista naquele período, levando um grande número de pessoas detidas nos primeiros dias de abril de 1964, tanto que o Estado precisou de espaços alternativos para a alocação dos presos, com a justificativa de que tivessem “melhores condições de comodidade e higiene”, como noticiou o jornal O Fluminense de 23 de abril daquele ano. O Caio Martins funcionava quase que como um centro de triagem, de onde os presos políticos eram retirados para prestarem depoimentos em outros locais de repressão militar, como nos DOPS por exemplo, onde segundo inúmeros registros, muitas vezes sofriam tortura.


Em depoimento à Comissão Nacional da Verdade (CNV) em 2014, 11 advogados que militaram na defesa de presos políticos, relataram dados chocantes no estádio/prisão. Dyrce Drach, advogada, que incansável, usou o Direito como instrumento de proteção para presos políticos, contou em seu depoimento que os torturadores não tinham vergonha de disfarçar mortes e violências. Ao perguntar sobre o paradeiro de uma cliente no DOPS, um policial respondeu: "Pode ficar tranquila. Essa se a gente pegar, a gente mata". Dyrce faleceu em 2017 aos 86 anos. Manoel Martins, também advogado, relatou que o Caio Martins foi o terror implantado. “Não podíamos fechar o banheiro. Tínhamos de ocupar o vaso sanitário de porta aberta, com o soldado de fuzil apontado para a nossa cabeça. Éramos professores, operários e camponeses, muitos evangélicos das Testemunhas de Jeová. As pessoas chegavam em caminhões.", relembra. "Eu vi tanta coisa e continuei vendo e precisava registrar isso. O que aconteceu com essa cidade, com Niterói, esse foco de resistência”.


Estádio Caio Martins foi palco para muitas partidas de times cariocas. Foto: Acervo da Bola

O Complexo Esportivo Caio Martins funcionou como prisão durante aproximadamente três meses, já em democracia, passou a ser administrado pelo Botafogo. Hoje, o espaço convive com a precarização de sua estrutura, o que foi agravado pela pandemia do novo Coronavírus. A parte do estádio, sob concessão do alvinegro carioca até 2023 (sem perspectiva para renovação), segue subutilizada, restrita a treinamentos no campo para as categorias de base do clube. O que permanecem intactas são as memórias e as lembranças daqueles que viveram os piores momentos de suas vidas naquele abril de 64.


Você que leu todo o texto talvez não tenha percebido que em nenhum momento do texto utilizei a expressão “Ditadura Militar”, mas você sabia exatamente do que eu estava falando. Isso é para mostrar que, falar da Ditadura não é apenas um ato político ou partidário, assim como não significa ser de esquerda ou de direita, capitalista ou comunista, flamenguista ou botafoguense, gremista ou Colorado.


Falar de ditadura, significa liberdade. Liberdade de expressar sua revolta e o seu descontentamento. É um direito nosso e das futuras gerações saber o que aconteceu. Ainda hoje, 36 anos após o fim da Ditadura Militar no Brasil, famílias de presos do Caio Martins, não sabem que fim tiveram seu pai, irmão, filho ou filha. Isso é um direito a favor da democracia! Como disse Paulo Freire, “O mundo não é, ele está sendo”, assim sendo, é passível de mudanças. E ela não vem da noite para o dia, ela vem através de lembranças e lutas e não de esquecimentos. Lembrar para não esquecer. Ditadura nunca mais!


Para que nunca se esqueça. Para que nunca mais aconteça.

Posts recentes

Ver tudo

Seja nosso parceiro!

E-mail: futebolporelas@hotmail.com

  • Facebook - Black Circle
  • Twitter - Black Circle
  • YouTube - Black Circle
  • Instagram - Black Circle