• Anna Virginia

Convicções de João sem medo

João Saldanha era, antes de tudo, um homem de convicções. Cercado por futebol e política durante toda a vida, foi escolhido para ser o técnico da Seleção Brasileira de 1970. Contudo, em um episódio até hoje não explicado na história do futebol, Saldanha foi demitido há três meses da estreia do Brasil na Copa do Mundo daquele ano.


João sem medo, como era conhecido, nasceu em Alegrete, no Rio Grande do Sul, no dia 3 de julho de 1917, em uma família de militantes políticos. Ao se mudar para o Rio de Janeiro, filiou-se ao Partido Comunista do Brasil (PCB) e se envolveu com o futebol. Foi treinador e dirigente no clube pelo qual se apaixonou - o Botafogo, e começou - em 1960 - a trabalhar na imprensa esportiva, na qual atuava quando recebeu o convite para treinar a seleção brasileira.


A resposta foi imediata: “Topo!”. A coragem de João Saldanha ao dizer sim para o desafio veio acompanhada da certeza de que não seria fácil driblar a influência dos militares na Confederação Brasileira de Desportos (CBD). Afinal, o convite para assumir o cargo ocorreu em 1969, em meio à Ditadura Militar que vivia sob o comando de Costa e Silva. Na época, Saldanha já era um rosto conhecido pelo regime, uma vez que era membro do PCB desde a década de 30.


O motivo de ter aceitado a proposta, apesar do momento político vivido pelo país, foi explicado por João Saldanha em carta publicada na Revista Placar em 1970: queria defender os direitos dos jogadores de futebol e aproximar novamente o povo da seleção. “Eu sabia que aquele ‘topo’ ia causar uma revolução no futebol brasileiro”, escreveu o treinador. Já a razão para a CBD ter escolhido um nome tão polêmico para treinar o time foi justamente a popularidade de Saldanha e, como consequência, a capacidade que ele teria para retomar a boa relação entre torcida e equipe.


Na primeira declaração concedida, o treinador fez questão de dar rostos ao time. Convocou, sem pestanejar, os jogadores que ficariam conhecidos como “as feras de Saldanha”. Após assumir uma equipe desacreditada em 1969, o técnico classificou o Brasil para a Copa do Mundo com uma campanha inquestionável: vencendo todos os jogos disputados, a seleção foi primeira colocada no grupo B. Nesse momento, o brasileiro já voltava a olhar com orgulho e esperança para seleção, enquanto a popularidade de João Saldanha crescia.


Foto: Acervo do jornal Última Hora

No entanto, a Ditadura Militar no Brasil havia se intensificado. Com a morte de Costa e Silva, o General Médici assumiu o poder dando início ao momento mais brutal do regime no país. Em entrevista concedida ao programa Roda Viva, em 1987, Saldanha não tem receio de dizer que sabia, a partir do momento em que Médici começou a governar, que o tempo de trabalho na Seleção estava contado.


João "Sem Medo" fez mais do que investir no esporte, ele também usou a posição que ocupava para lutar pelo que acreditava na política. As viagens da delegação para o exterior eram usadas para ajudar exilados e enviar documentos que denunciavam as torturas cometidas pelo regime militar. Era, portanto, uma pedra no sapato da Ditadura. Porém, uma pedra cuja popularidade a tornava difícil de remover.


No documentário “Memórias de Chumbo - o futebol nos tempos de condor”,

produzido pelo jornalista e historiador Lúcio de Castro para o canal esportivo ESPN,

o historiador Carlos Eduardo Sarmento afirma que a saída de Saldanha do cargo de

técnico foi uma intervenção direta da Ditadura Militar. Mas isso só foi possível após um trabalho intenso de desgaste da imagem do treinador.


Com pouca paciência para levar desaforo para casa e sem receio de dizer o que pensava, os episódios polêmicos envolvendo o treinador eram frequentes e recebiam destaque na imprensa, o que refletia negativamente na figura de Saldanha. As polêmicas que antecederam a demissão foram os desentendimentos com o jogador Pelé; a invasão ao Centro de Treinamento do Flamengo, com uma arma na mão, para resolver uma briga com o então treinador rubronegro, Yustrich; as duras críticas à imprensa nas crônicas assinadas por Saldanha; e a polêmica que é provavelmente a mais conhecida: a não convocação de Dadá Maravilha, atacante do Atlético Mineiro.


Dadá era constantemente lembrado pelo General Médici em suas entrevistas, nas quais

pedia a convocação do atleta, provocando João Saldanha. Apesar de aconselhado a ceder a pressão, o treinador não chamou o jogador e divergiu publicamente de Médici, com uma declaração que ficou famosa na história do futebol brasileiro: “ele escala o Ministério e eu escalo a seleção”. Duas semanas após a frase, Saldanha foi demitido.


Ao ser perguntado sobre a demissão no Núcleo Esporte e Cidadania, em 1988, Saldanha afirmou que treinar a seleção, sob as circunstâncias da época, exigia que se matasse um leão por dia e que a pancada vinha de todos os lados. Ele foi enfático: “os pretextos foram sórdidos. Fui demitido pelo governo do maior ditador e maior assassino da história do país”. Saldanha era, de fato, um homem de convicções.

Receba as novidades

do Futebol Por Elas

  • Facebook - Black Circle
  • Twitter - Black Circle
  • YouTube - Black Circle
  • Instagram - Black Circle