• Stephany Locatelli

Cruzeiro: a crise histórica que assombra o time celeste

Atualizado: Jan 17

O Cruzeiro, um dos maiores clubes do país, está vivendo tempos sombrios. Às vésperas do ano do centenário, o torcedor cruzeirense acredita que não terá muito o que comemorar. E tudo isso é culpa da má gestão de uma diretoria gananciosa. O time que é investigado, desde o ano passado, por lavagem de dinheiro, falsidade ideológica e indícios de pagamentos suspeitos tem um futuro incerto. Isso porque os processos não param de bater à porta e as punições começaram a acontecer já na última semana. O que antes era visto apenas como incompetência por parte dos dirigentes do clube, passou a ser caso de polícia. E a esperança por dias melhores para o azul celeste aos poucos tem sua chama apagada.


A temporada passada (2019) tinha tudo para ser boa para o Cruzeiro. Logo de cara o time conquistou o título do Campeonato Mineiro e protagonizou uma boa campanha na fase de grupos da Libertadores. Mas a boa fase estava com os dias contados. Foi depois de uma investigação da Polícia Civil sobre transações irregulares e uso de empresas de fachada para ocultar crimes cometidos dentro do clube no meio do ano, que a situação cruzeirense começou a despencar. O time foi eliminado da Libertadores e da Copa do Brasil. No Brasileirão não conseguiu ao menos uma vez chegar à primeira parte da tabela e brigou contra o rebaixamento até a última rodada. Luta essa que foi perdida pelo time mineiro na última rodada após a derrota por 2 a 0 contra o Palmeiras em jogo encerrado antes do tempo regulamentar devido à violência e revolta da torcida. A Raposa iria jogar a Série B pela primeira vez na sua história.


Dívidas e punições

Além da investigação, o time também teve jogadores afastados, salários atrasados e quatro treinadores diferentes ao longo da competição. A dívida do time não parou de crescer e se a situação do time já não estava boa por conta desse fato, ficou pior nesses últimos dias. Na última terça-feira (19), foi anunciado que o time começaria a competição com menos seis pontos. O comunicado foi feito pela FIFA devido ao não cumprimento da ordem de pagamento à dívida do clube com o Al Wahda, pelo empréstimo de seis meses do volante Denílson, entre o meio e o fim de 2016. O pagamento, que deveria ter sido realizado até está segunda-feira (18), na casa dos 850 mil euros, cerca de R$5 milhões na cotação atual, tentou ser negociado pelo Cruzeiro com um parcelamento e até um adiamento do prazo combinado. Após a punição outro prazo foi dado e caso não seja cumprido novamente, o time de Minas sofrerá outra punição da FIFA e desta vez, a inadimplência poderá resultar no rebaixamento do time celeste para a Série C do Campeonato Brasileiro.


Além disso, há ainda outra dívida cruzeirense junto à FIFA. Desta vez trata-se da compra do atacante Willian que veio do futebol ucraniano em 2014. O pagamento deve ser realizado até o dia 29, caso contrário sofrerá outra punição de seis pontos. E seguindo os mesmos parâmetros do caso citado anteriormente, o time pode ser rebaixado caso a dívida não seja paga. A dúvida que fica por ora é saber se, caso esses casos sejam resolvidos desta forma, as punições seriam acumuladas a ponto de o clube chegar a Série D ou o rebaixamento para a Série C incluiria os dois processos.


É evidente que a situação financeira do clube não vem bem há um bom tempo, mas a pandemia tornou tudo mil vezes pior e acarretou ainda mais a diminuição de receitas, perdendo associados do clube e contratos com patrocinadores.


Para simplificar, no fim de janeiro desse ano o Cruzeiro divulgou um balanço sobre as dívidas na FIFA: R$ 81,4 milhões. De acordo com o slide, R$ 36,6 milhões devem ser pagos no primeiro semestre desse ano, R$ 43,7 milhões no segundo semestre e R$ 1,1 milhão em 2021.


O clube ainda tem pendências de negociações realizadas em 2015 com os jogadores Arrascaeta e Riascos. Referente ao ano 2016, o clube possui débitos em relação às compras dos atacantes Rafael Sobis, vindo do Tigre, que conversam a respeito do pagamento de 3 milhões de dólares em ações desmembradas, e de Ramón Ábila, vindo do Huracán. No caso do Argentino, o clube de Buenos Aires perdoou a dívida do clube mineiro, entretanto ainda lida com uma cobrança do Instituto de Córdoba. Ainda referente ao mesmo ano há uma dívida que supera R$ 1 milhão que diz respeito ao treinador português Paulo Bento e sua comissão técnica.


A Raposa teme que mais dois casos venham à tona. Um em relação ao Rodriguinho comprado ano passado do Pyramids que gira em torno do valor atual de R$ 39 milhões. O outro trata-se do lateral Dodô. O clube havia se responsabilizado em pagar 30 mil euros à Sampdoria com base em uma de duas condições: o ex-jogador do Santos deveria fazer três partidas no Campeonato Brasileiro ou o clube precisaria alcançar 15 pontos na competição. O que de fato aconteceu, mas da parte do Cruzeiro o acordo não foi cumprido. Ambos os casos correm o risco de irem para a FIFA.


Outro problema que começou a rondar o clube envolve o ex-treinador Mano Menezes que cobra cerca de R$ 5,3 milhões na Justiça do Trabalho pelo clube não ter cumprido um acordo da demissão, em 2019, de R$ 1,9 milhão. De acordo com o globoesporte.com há dois processos na 27ª e 42ª Vara de Belo Horizonte. O primeiro é referente ao contrato rescindido antecipadamente em agosto de 2019 e o segundo é a cobrança de direitos de imagens.


Se o futebol e o financeiro do Cruzeiro estão bagunçados a ponto de preocupar consideravelmente o torcedor, é claro que o clima do clube também não está positivo. O ex-presidente Wagner Pires de Sá e o seu vice Hermínio Lemos estão sendo julgados pelo Conselho Deliberativo com uma possível expulsão dos ex-dirigentes do quadro de conselheiros do clube por conta da chamada “gestão temerária” nos anos de 2018 e 2019. Em nota o Cruzeiro diz:


“[...] Ficou demonstrado que os dirigentes deixaram de arcar com as obrigações trabalhistas e previdenciárias do clube, tendo, ainda, deixado de observar o disposto na Lei [...] que estabelece princípios e práticas de responsabilidade fiscal e financeira e de gestão transparente e democrática para entidades desportivas profissionais de futebol. [...]”.

Na quinta-feira (21), o eleito presidente para o mandato de sete meses (1° de junho e 31 de dezembro) Sérgio Santos Rodrigues comunicou que suas primeiras atividades serão: realizar o pagamento de funcionários e jogadores, bem como a dívida na FIFA que vence no fim desse mês. O tema foi discutido logo depois da votação e o advogado espera mais do nunca conseguir os recursos necessários para quitar as dívidas e livrar o Cruzeiro de mais uma punição.


Situação de outros times no Brasil

Não é segredo para ninguém que a má gestão de muitos clubes brasileiros se faz presente e isso acaba ocasionando problemas futuros como é o caso do Cruzeiro. E qual é o principal motivo que fazem com que os clubes entrem nessa fria? Talvez, o principal ponto seja o clube não ter consciência de que não se deve gastar mais do que arrecada. Portanto, talvez seja a hora da CBF trazer de volta a pauta sobre a instalação do Fair Play financeiro onde os clubes seriam obrigados a prestar contas em razão do quando arrecadam e gastam na temporada. Dessa forma, seguindo os passos da Europa, poderemos restaurar as finanças dos clubes brasileiros, fazendo com que no futuro eles alcancem novamente suas glórias no cenário mundial como foi outrora. Afinal, é o nosso dever zelar pelos aspectos financeiros e técnicos dos nossos clubes.

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