• Karoline Tavares

De Carregal aos dias atuais: o negro no futebol mundial

Atualizado: Jul 24

No futebol masculino atual, vemos muitos homens negros nos mais diversos times, aqui no Brasil e no exterior. Mas o que muitas vezes não vemos é o que eles sofrem a cada dia, simplesmente por serem negros.

Voltando no tempo, chegamos a Francisco Carregal, um homem pouco falado nos escritos sobre futebol. Carregal, filho de pai português (branco) e mãe brasileira (negra) era tecelão e se tornou o primeiro jogador de futebol negro do Brasil, no ano de 1905. Ele atuou pelo Bangu, do Rio de Janeiro, na posição de meio-campista. No dia da estreia, em 14 de maio daquele ano, o único negro e brasileiro do time (constituído, em essência, por ingleses) era "o mais bem vestido dos jogadores do Bangu", nas palavras de Mário Filho no livro "O Negro no Futebol Brasileiro". Além disso, o jogador tinha uma flagrante preocupação em parecer "o mais branco possível" em meio aos europeus.

Outros jogadores negros da época também tentavam se encaixar no molde padrão de estética eugenista. Arthur Friedenreich (de pai alemão, branco, e mãe brasileira, negra), considerado o primeiro ídolo do nosso futebol, alisava os cabelos antes dos jogos.

Nos anos 1920, foi criada a Associação Metropolitana de Esportes Athleticos (AMEA), com o objetivo de segregar os clubes maiores dos menores no Rio de Janeiro. Antes disso, na Liga Metropolitana, entidade então responsável pelo futebol carioca, os representantes das equipes de maior expressão apresentaram algumas condições ao restante dos times para que eles lá seguissem, dentre as quais a exclusão de jogadores negros do quadro de atletas.

Em 1950, após a dura derrota por 2 a 1 da seleção brasileira para o Uruguai na final da Copa do Mundo, em um Maracanã com quase 200 mil pessoas, a culpa recaiu sobre o goleiro Barbosa. Hoje em dia, é muito comum que a responsabilidade por uma derrota sobre para um jogador específico, quando nós deixamos de lado a racionalidade e nos vidramos no clubismo, sem levar em consideração que o futebol é um esporte coletivo e que existem vários fatores que possam conduzir um time à derrota. Naquele ano, porém, os insultos proferidos contra Barbosa e que se seguiram por quase toda a vida do atleta foram muito além de "análises" quanto à atuação. Foram racismo puro. A recusa em ter um homem negro defendendo as redes da seleção brasileira persistiu por tanto tempo que o primeiro após Barbosa foi Dida, em 2006 (nas Copas de 1998 e de 2002 foi convocado, mas não atuou como titular). Depois, veio Jefferson, que revelou ter sido barrado da seleção sub-20, em 2003, por ser negro.


De lá para cá, são incontáveis os episódios de racismo contra jogadores negros no futebol mundial. Os mais recentes, ocorridos na Itália e na Ucrânia, foram banalizados por frouxas punições das respectivas federações e por pessoas que não acreditam que isso tenha tanta importância. Quando ultras da Inter de Milão pediram que Romelu Lukaku, jogador da equipe, compreendesse as ofensas racistas de parte dos torcedores do Cagliari "como uma forma de respeito ao fato de que eles têm medo de que você faça gols" ou Taison foi punido por reagir a atos racistas, enquanto o Dínamo de Kiev teve apenas que pagar uma multa e um jogo com portões fechados, percebemos que o buraco é bem mais embaixo. A naturalização do racismo existe de forma escancarada e fechar os olhos diante de tudo isso, é ser cúmplice dele, seja no futebol ou em qualquer outra área da sociedade.

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