• Carla Dayube Nunes

Diário de um torcedor na pandemia

Atualizado: 24 de Jul de 2020

Hoje não terá subtítulo, legendas ou frases de efeito. Há mais ou menos 100 dias, paramos tudo: é o que o medo do desconhecido faz, paralisa mesmo. Em pensar que, no fim do Campeonato Brasileiro, mesmo sem chances de ser campeão, estava lá, no Maracanã, gritando, torcendo, como se meu time estivesse na final.


Escolas, lojas, academias e tantos outros estabelecimentos fecharam, os jogos pararam, as ruas estão desertas e muitas notícias. O medo, a incerteza, o desemprego, a miséria. A falta do convívio social. A falta de me estressar com meu time. Meu time. O futebol.


Desde a Segunda Guerra Mundial, o futebol não sofria com tamanha interferência e paralisação. Tudo mudou e muitos setores tiveram que se readaptar e se reinventar em meio a Covid-19. Nesse contexto, emissoras de televisão passaram a reprisar grandes jogos. Um carinho no coração dos apaixonados por futebol.


De jogos da Seleção ao histórico gol de Barriga do Renato Gaúcho, que completou 25 anos semana passada, assisti como se estivesse assistindo pela primeira vez. Não falei mal do técnico e do juiz; gritei sim, resmunguei com certeza. Mas estava grata. Essa era uma forma segura de estar em contato com esse esporte, que tinha a capacidade de me deixar nas nuvens ou muito, muito irritada. Estava matando as saudades, recuperando um pouco do que essa doença estava tirando de mim em meio à quarentena.


foto: divulgação

Foi aí que o estado do Rio de Janeiro deu uma volta de 360 graus em um piscar de olhos: o Campeonato Carioca voltou, com portas fechadas, no mesmo lugar em que montaram um hospital de campanha (de forma polêmica, devo acrescentar), onde pessoas tinham dificuldade de respirar ou estavam correndo risco de morrer por conta do vírus intruso. Definitivamente, não fazia sentido.


Acrescentando um pouco mais de tempero à situação, Flamengo e Globo brigam e a emissora reincide os contratos faltando 5h para a bola voltar a rolar em mais jogo válido pelo estadual. O Flamengo ressurge e reitera que não precisava da emissora. Em transmissão pela FlaTV, Rodolfo Landim, presidente do clube, afirmou que o duelo contou com mais de 14 milhões de espectadores no total.


Em termos financeiros, o Flamengo já havia arrecado, antes de iniciar a partida, R$ 125 mil em patrocínios e R$ 200 mil na venda de ingressos. O clube transmitiu via streaming MyCujoo para os torcedores ou apaixonados por futebol que residem no exterior. Para assistir, foi necessário pagar oito dólares. A transmissão atingiu 10.844 contas únicas de forma simultânea - o que resulta em 83.872 dólares, cerca de R$ 450 mil. Um dos pontos altos da noite foi a doação durante a transmissão no YouTube. Milhares de torcedores fizeram lances variados para terem as mensagens destacadas no chat da plataforma. Segundo dados preliminares foram arrecadados R$ 2,7 milhões (lembrando que 30% fica para a plataforma).


Será que esse é o começo do novo normal? Espero que não. Será que torcedores de todos os cantos poderão manter esse tipo de arrecadação? Com certeza não. Apesar do direito de os clubes negociarem as suas transmissões, muitos contavam com sua cota de TV em sua receita. Terá o Flamengo esse recorde todas às vezes, em todas as partidas? Ou seria isso apenas uma novidade, que vai se perdendo com o tempo? Não sei. Existem torcedores apaixonados e torcedores de finais.


Estamos pensando a longo ou curto prazo? Me pergunto se após a pandemia, essa estrutura toda poderia se manter. Eu digo, pode o meu time contar com a torcida e ser inteligente administrativamente para tornar o clube um chamariz de jogadores internacionais porque o Brasil é a nova Europa? Assistir jogos online poderia substituir a qualidade de um jogo narrado por profissionais na televisão?


É certo comemorar ou jogar do lado de um hospital de campanha ou em um momento onde familiares e amigos choram a partida ou o diagnóstico de um ente querido? Eu acho que não.


Protocolo bom é o que respeita vidas", diz faixa erguida pelos atletas do Botafogo antes da bola rolar | Foto: divulgação/twitter do Botafogo

Tem mais: me questiono se é justo com jogadores e seus familiares ficarem expostos ao vírus, apesar da alegação de que todas as medidas de higienização são tomadas. Você teria que monitorar todos os funcionários e jogadores envolvidos no estádio, dos times, um verdadeiro Big Brother Covid-19.


Assim como no jogo entre Fluminense x Volta Redonda. Um absurdo. No dia da partida, três jogadores foram barrados antes de entrar no ônibus porque testaram positivo para o Coronavirus naquela manhã. Isso mesmo: naquela manhã, depois de nove dias de treinamentos coletivos.


Como um time joga com uma informação dessas? Eu prenderia o ar, mesmo de máscara! Não ia respirar! Não ia querer encostar-me a ninguém! Você conseguiria? Jogador é uma pessoa também; tem medo, amor à família, é um ser humano como eu ou você. Só que a maioria de nós, está em casa ou no trabalho sem ter que correr, transpirar ou cuspir próximo a você. Ou até mesmo se embolarem em campo.

Mas voltando ao time: e os demais jogadores do Volta Redonda? Podem ter se contaminado, estar assintomáticos, mas podem passar para os de casa. E aí, mais contaminação, como em um ciclo que não parece se quebrar.


E o Fluminense? Vejo tantos torcedores reclamando da sua falta de gana, o desempenho dos jogadores e o técnico em dois jogos, sendo um deles contra o Volta Redonda! Mas me espanto com a cobrança de que deveriam jogar sem pensar em nada, sem esquecer a quarentena, dos milhares que morreram no Brasil, dos que ainda estão doentes.


O Tricolor das Laranjeiras tem sido contra o retorno e batalhado, junto ao Botafogo, na justiça para que isso fosse evitado, pois acreditavam que não era o momento de retornar. Mas voltaram, dia 28, contra o Voltaço, o mesmo que tinha barrado jogadores que tinham adoecido e que estava em contato com os demais companheiros de time.

Muitas pessoas concentram suas energias e encontram em crossfit, dietas fit, igrejas, jiu-jitsu, luta livre (corrida agora é bem popular), entre outros hobbies. Uma forma de extravazar, uma terapia focada em sentimentos de concentração, stress, alívio e êxtase. Assim é o futebol, pra mim, pra elas, pra muitos, milhões e bilhões. Mas eu posso assistir as reprises de futebol no momento, apesar de amar!


Então, querido diário, não se trata de pensar em mim. Celebro sua história, as alegrias e derrotas que marcaram sua trajetória. Celebro os grandes jogadores, como Branco, Zico, Pelé, Ronaldo Fenômeno, Ronaldinho Gaúcho, Renato Gaúcho, Edmundo, Romário, Washington e Assis! O que eu não quero é ser uma espectadora do coliseu de Roma, vendo pessoas morrer para meu entretenimento.

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