• Eduarda Porfírio

'Eu não sou racista, até tenho amigos negros'

No último domingo, Neymar virou notícia novamente, mas infelizmente não foi sobre a performance dele em campo. O jogador foi expulso da partida contra o Olympique de Marseille por ter dado um tapa no zagueiro Álvaro González, que teria chamado atacante de macaco, segundo o próprio Neymar.


Pouco depois do fato, o jogador brasileiro falou sobre o ocorrido em suas redes sociais, dizendo que não aceitava esse tipo de comportamento. Em resposta ao camisa 10 dos rouge et bleu, González postou uma foto ao lado de seus colegas negros de time no Twitter. Como se ter amigos pretos anulasse quaisquer atitudes racistas.


São até engraçadas as justificativas que as pessoas brancas dão após serem racistas, como se elas fossem incapazes de praticar tais ofensas. E é algo tão inerente na sociedade, que as pessoas ainda duvidam que Neymar tenha sofrido racismo de fato. Não à toa, o atacante brasileiro já teve uma punição sancionada, enquanto o espanhol segue sendo investigado.


O tio de González, Manuel Soberón, chegou a dizer ao canal Cuatro da televisão espanhola que Neymar era um hipócrita por denunciar o comportamento do zagueiro, já que o jogador havia passado a partida insultando o sobrinho dele. "Ele o insultou constantemente durante o jogo. Disse que Álvaro ganhava quatro euros e ele 10 milhões de euros por ano", Soberón disse.


Vamos parar analisar: uma coisa é você provocar alguém falando sobre diferença salarial, outra bem diferente é usar afrontes de caráter racial ou até mesmo homofóbicos - como um canal espanhol apontou que Neymar teria feito.


E novamente, o parente de Álvaro usou o argumento dos amigos negros para demonstrar a inocência do sobrinho. Não me espanta, na verdade achei graça quando vi a afirmativa. As pessoas brancas estão sempre querendo apontar o que é ou não racismo do ponto de vista delas, o que não faz sentido algum, uma vez que são elas as responsáveis pelo surgimento e reforço do racismo como prática e instituição.


No livro “Por que não converso mais sobre raça”, a jornalista Reni Eddo-Lodge alega que “quando as pessoas de cor apontam isso, elas são acusadas de serem racistas contra pessoas brancas, e o desvio da responsabilidade continua”, não foi diferente com Neymar, já que Soberon ainda disse que o atacante brasileiro é quem seria racista, desviando a responsabilidade da problemática de Álvaro a Neymar, que já estava culpabilizado pelo modo como respondeu as ofensas.


Sem falar que quando o jogador do PSG foi denunciar ao árbitro, este o ignorou. Por que? Porque Neymar é negro, quando reclamamos dos brancos não somos ouvidos, pois fomos nós que nascemos da cor errada. Novamente, Eddo-Lodge diz que: “o neutro é branco. O padrão é branco. Porque nós nascemos em um roteiro já escrito que nos diz o que esperar de estranhos devido à sua cor de pele, sotaques e status social, toda a humanidade é codificada como branca”.


Não quero dizer aqui que uma pessoa preta não pode ser racista, visto que, devido os moldes sociais sob os quais crescemos, absorvemos esse tipo de atitude da branquitude. Entretanto, quero chamar o foco para a falta de atenção a real questão nesse caso: o futebol como uma instituição racista.


É a tal da vitimização branca que Alana Lentin e Gavin Titley falam, “um esforço dos poderes de desviar as conversas sobre os efeitos do racismo estrutural para proteger a branquitude de críticas rigorosas e necessárias”. As organizações futebolísticas não fogem disso.


A falta de ação do árbitro diante dos xingamentos racistas e a afirmação infeliz do presidente da Federação Francesa de Futebol, Noël Le Graët para a BFMTV ilustram bem isso. Le Graët teve a ousadia de falar que não existe racismo no futebol ou se existe, é muito raro.


Ora, talvez ele tenha pensado isso porque a seleção da França é totalmente colorida. Entretanto, não podemos esquecer das críticas ferozes que são desferidas ao jogadores negros e imigrantes quando falham em campo. Os exemplos mais explícitos disso são Zidane e Benzema, que mesmo brancos não são passíveis de erros por não serem franceses “puros.”


Como aconteceu na Seleção Brasileira com o goleiro Barbosa e o zagueiro Bigode na final da Copa do Mundo de 1950 contra o Uruguai. As falhas de ambos contribuíram para a vitória de 2 a 1 do Uruguai foram suficientes para levantar críticas a presença de jogadores negros em campo e dar força a teorias eugenistas.


Da mesma forma, porém, de um modo mais velado, acontece com Neymar. Longe de querer defender as quedas desnecessárias, contudo, há uma cobrança imensa no desempenho dele que não se vê com outros jogadores brancos brasileiros, como o Philippe Coutinho.


É como Silvio de Almeida disse em entrevista ao podcast Ubuntu Esporte Clube: “a nós negros é negado a experiência, porque a nós negros, portanto, há uma tolerância muito menor em relação a possibilidade de errar e quem não erra não aprende".


Dentro das quatro linhas o negro só tem por dever jogar bem, quando exige seus direitos, não é ouvido e nem considerado, porque para a branquitude só servimos ao seu bel prazer, seja ele qual for.

Receba as novidades

do Futebol Por Elas

  • Facebook - Black Circle
  • Twitter - Black Circle
  • YouTube - Black Circle
  • Instagram - Black Circle